O legado de um gigante

As palavras com que Cristiano Ronaldo encerra o seu ciclo na Selecção Nacional: ”Se tivesse feito um português feliz, já teria valido a pena”, revelam a dimensão humana de quem, tendo conquistado o topo do mundo, nunca cortou o cordão umbilical que o liga ao país.

​A análise cirúrgica do Professor José Filipe Pinto (académico português, investigador e comentador na área da ciência política e das relações internacionais no canal NOW), toca num ponto nevrálgico quando expõe esse “tique” crónico que teima em habitar o ADN colectivo português. Não é, de todo, uma coincidência cósmica que a maior epopeia da nossa literatura, Os Lusíadas de Luís de Camões, termine precisamente a alertar contra os perigos da inveja e do “vão furor”.

​Ronaldo sai consagrado pela história universal do desporto, mas a sua despedida deixa a nu uma fractura antiga: a dificuldade crónica de Portugal celebrar em plenitude os seus gigantes sem os tentar diminuir pelo caminho...

​O paralelismo traçado por José Filipe Pinto ao evocar o final de Os Lusíadas é de uma lucidez implacável. Camões já avisava no Canto X para os perigos daqueles que se movem pela mesquinhez e pela incapacidade de aplaudir o mérito alheio.

No fundo, a relação de Portugal com Cristiano Ronaldo sempre oscilou entre a adoração incondicional e o escrutínio impiedoso — um reflexo perfeito de uma sociedade que muitas vezes estranha a própria grandeza.

Valdemar Faustino