Vivem os homens solteiros mais do que os casados na Madeira?
As mulheres madeirenses vivem, em média, quase seis anos mais do que os homens. A informação, divulgada pelo DIÁRIO na sexta-feira, 30 de Outubro, tem por base os dados mais recentes da esperança de vida à nascença, publicados pelas entidades estatísticas oficiais (INE e DREM).
A notícia motivou vários comentários nas redes sociais. Um deles, da autoria de S. Nóbrega, atribuiu a diferença ao casamento. Segundo o leitor, o estudo teria considerado apenas os homens casados, uma vez que os solteiros viveriam mais. A acompanhar a afirmação, quatro emojis, que deixam perceber o sentido humorístico do comentário.
Não há razões para pensar que o observação pretendesse ser levada à letra. Ainda assim, a brincadeira levanta uma questão que pode ser analisada com recurso às estatísticas oficiais. Será que os homens solteiros vivem efectivamente mais do que os casados? E, se assim for, haverá números que permitam demonstrá-lo na Madeira?
Para verificar a veracidade das afirmações, recorremos aos resultados definitivos dos Censos 2021, publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), e às Estatísticas Demográficas da Madeira, divulgadas pela Direcção Regional de Estatística (DREM).
A pesquisa teve dois objectivos. O primeiro foi perceber se os números da esperança de vida divulgados na notícia se referiam apenas aos homens casados. O segundo, mais trabalhoso, consistiu em procurar dados que permitissem comparar a mortalidade dos homens casados e solteiros residentes na Região.
Quanto à primeira questão, a resposta é simples. A esperança de vida à nascença não é calculada a partir de uma amostra de homens casados, mas dos registos de mortalidade da população, independentemente do estado civil.
Já a segunda verificação obrigou a cruzar informação de duas fontes diferentes. Dos Censos 2021 retirámos o número de homens residentes na Madeira, distribuídos por grupos etários e estado civil. Das Estatísticas Demográficas do mesmo ano recolhemos os óbitos masculinos, igualmente classificados por idade e estado civil.
Comecemos pelos números da população.
Em 2021, residiam na Madeira 117.685 homens. Destes, 58.045 eram solteiros, 47.968 casados, 8.518 divorciados e 3.154 viúvos. Ou seja, havia mais homens solteiros do que casados.
No mesmo ano morreram 1.416 homens residentes na Região. Entre os falecidos, 808 eram casados, 276 viúvos, 190 solteiros e 126 divorciados. Em 16 casos, o estado civil não estava identificado.
À primeira vista, estes números poderiam dar razão ao comentário. Morreram mais de quatro homens casados por cada solteiro. Mas essa comparação, feita apenas com os totais, seria enganadora.
A explicação está na idade. Entre os solteiros encontram-se milhares de crianças, adolescentes e jovens adultos, enquanto os casados se concentram nas idades mais avançadas. Ora, o risco de morte aumenta com a idade, pelo que não seria correcto comparar os dois grupos sem ter em conta essa diferença. Foi isso que procurámos fazer.
Considerando os homens dos 40 aos 44 anos, verificámos que morreram 4,66 solteiros por cada mil residentes desse estado civil e idade. Entre os casados, a taxa foi de 1,06 por mil.
Dos 45 aos 49 anos, a diferença manteve-se. A mortalidade foi de 5,33 por mil entre os solteiros e de 1,74 entre os casados.
Nos cinco anos seguintes, dos 50 aos 54, as taxas foram, respectivamente, de 9,22 e 3,89 por mil. Já entre os 55 e os 59 anos, morreram 20,57 solteiros por cada mil residentes, contra 8,24 casados.
A diferença continuou nas idades seguintes. Dos 60 aos 64 anos, os solteiros registaram uma taxa de 17,01 por mil, superior aos 11,59 dos casados. Entre os 65 e os 69 anos, os valores foram de 50,20 e 21,03 por mil.
A tendência inverteu-se entre os 70 e os 74 anos. Neste grupo, a mortalidade dos casados, de 30,66 por mil, ultrapassou a dos solteiros, que se ficou pelos 24,65.
Acima dos 75 anos, considerando todas as idades num único grupo, os solteiros voltaram a apresentar maior mortalidade: 101,41 por mil, contra 79,78 entre os casados. Esta última comparação exige, porém, especial prudência, uma vez que o intervalo reúne pessoas com idades muito diferentes.
Feitas as contas, em sete dos oito grupos etários analisados a mortalidade foi superior entre os homens solteiros.
Para reduzir o efeito das diferenças de idade, efectuámos ainda um cálculo das taxas de mortalidade ajustadas, considerando os homens dos 40 aos 74 anos e utilizando como referência a distribuição etária conjunta dos solteiros e casados.
O resultado foi de 16,64 óbitos por mil entre os solteiros e de 9,08 por mil entre os casados. Uma diferença de aproximadamente 83%, desfavorável aos primeiros.
Estes resultados não significam que o casamento, por si só, faça viver mais. Há outros factores que podem influenciar a mortalidade, desde as condições económicas aos hábitos de vida, passando pela saúde, pelo apoio familiar e por circunstâncias que os dados utilizados não permitem avaliar.
Os resultados encontrados na Madeira não são, de resto, uma excepção. Vários estudos internacionais, realizados com populações muito mais numerosas e ao longo de períodos alargados, chegaram a conclusões semelhantes, identificando uma maior mortalidade entre os homens que nunca casaram, quando comparados com os casados.
Uma meta-análise publicada em 2020, que reuniu estudos envolvendo cerca de 7,9 milhões de pessoas, encontrou um risco de morte 46% superior entre os homens não casados. Outra investigação, publicada em 2022, que acompanhou mais de 623 mil pessoas em vários países asiáticos, identificou um risco de mortalidade 62% superior entre os indivíduos que nunca casaram, relativamente aos casados. Mais recentemente, uma meta-análise publicada em 2025, abrangendo cerca de 1,8 milhões de pessoas, voltou a encontrar uma associação entre a ausência de casamento e maior mortalidade, com uma diferença de risco de aproximadamente 55%.
Apesar da dimensão destas investigações e da semelhança dos resultados, os próprios estudos não permitem concluir que casar seja, por si só, uma garantia de maior longevidade. A saúde anterior ao casamento, as condições de vida, os comportamentos individuais e o apoio social podem ajudar a explicar as diferenças. O que parece consistente, tanto nos estudos internacionais como nos números que apurámos para a Madeira, é a existência de uma associação entre o estado civil e a mortalidade, geralmente desfavorável aos homens solteiros.
Há ainda outra questão. O estado civil considerado é o que cada pessoa tinha no momento dos Censos ou da morte. Um homem que viveu casado durante décadas pode morrer viúvo. Da mesma forma, um solteiro pode viver em união de facto. São realidades diferentes que importa não confundir.
Também não seria correcto transformar as diferenças encontradas em anos de esperança de vida. A análise incidiu sobre a mortalidade registada em 2021, não permitindo determinar quantos anos vivem, em média, os homens casados e solteiros. Para isso seria necessário um estudo mais abrangente, incluindo vários anos e uma distribuição etária mais detalhada nas idades avançadas.
Apesar destas limitações, os números permitem responder à questão que motivou a pesquisa. Na Madeira, em 2021, os homens solteiros apresentaram taxas de mortalidade superiores às dos casados na maioria dos grupos etários analisados. A diferença manteve-se depois de efectuado o ajustamento à idade entre os 40 e os 74 anos.
Regressemos, por fim, ao comentário que deu origem a esta verificação. Tudo indica que se tratou de uma brincadeira sobre a vida conjugal, e não de uma tentativa de apresentar informação estatística. Mas, tomada literalmente, a afirmação não encontra apoio nos dados que analisámos.
Pelo exposto, a afirmação de que o estudo considerou apenas homens casados e de que os solteiros vivem mais é avaliada como falsa.