Uma hora de silêncio nos Restauradores contra a violência policial
Cerca de 200 pessoas estiveram hoje quase uma hora em silêncio sentadas no chão na praça dos Restauradores, no centro de Lisboa, em protesto contra a violência policial.
A vigília foi marcada pelo movimento Mães pela Acampada, surgido na sequência das acampadas pela habitação e das intervenções da polícia para dispersar os manifestantes no Porto e em Lisboa, e pretendeu alertar que "com violência nada se faz", como explicou à agência Lusa uma das mães organizadoras.
Com alguns cartazes e pequenas tendas em papel no chão com a frase "Teto para toda a gente", os participantes foram acompanhados por um coro, composto por membros de vários grupos corais.
O grupo, constituído nomeadamente por famílias, permaneceu de forma ordeira na praça e foi acompanhado à distancia pela polícia, sendo visíveis seis viaturas.
Teresa Soares, uma das manifestantes, veio do Barreiro em solidariedade com os jovens da Acampada de Lisboa pela Habitação e condenar a violência policial "que não tem lugar em democracia".
"Tenho casa, não estou aqui por causa de mim, mas para marcar presença em solidariedade com todos aqueles que não têm casa nem têm possibilidade de a ter", disse à agência Lusa.
Para Teresa Soares, no Portugal democrático de hoje há ainda muitas necessidades básicas que não estão resolvidas.
"Ter casa é uma necessidade básica para qualquer pessoa. Por isso quero estar aqui para dizer que estou solidária com eles, que merecem esta luta, que devem lutar e que têm direito a ter uma vida normal como outra pessoa qualquer. Com a dificuldade de habitação é muito difícil", sublinhou.
Mas a presença de Teresa Soares nos Restauradores, em Lisboa, é também contra a violência policial.
"Não aceito que essas coisas sejam feitas. Ver pessoas a sangrar da cabeça porque levaram bastonadas é uma coisa horrível nos dias de hoje, em democracia como vivemos, dizem. Não podem agir dessa maneira", sustentou, numa alusão às intervenções da polícia nas acampadas de Lisboa e Porto.
Também para Rosário Vaz, a participação na vigília do Movimento das Mães pela Acampada não é uma questão pessoal.
"Estou aqui por solidariedade com os nossos jovens. Não por mim porque já tenho idade e tenho o problema da habitação resolvido", contou à Lusa, elogiando os jovens manifestantes por terem "sabido trazer ao domínio público um problema que era sofrimento de tanta gente e que estava esquecido".
"Neste momento está na praça pública em discussão para os nossos políticos ouvirem de viva voz uma juventude que tem a vida hipotecada. É indigno o que se está a passar e este momento", sublinhou, garantindo que voltará à rua quantas manifestações for preciso.
No final da vigília, as várias centenas de manifestantes deslocaram-se para o Rossio, onde decorria a assembleia popular da Acampada de Lisboa pela Habitação, e formaram um cordão humano em torno da praça D. Pedro IV.
Rita Assunção, uma das mães do movimento, disse depois na acampada que é preciso recentrar o diálogo de novo na habitação e não na violência.
"Alem dos protestos correm petições e cartas. Estamos a pressionar quem manda na habitação e no país", disse, pedindo aos jovens para não terem medo.
Os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades.
A intervenção da PSP para dispersar as acampadas e retirar as tendas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, culminou em cargas policiais que provocaram dezenas de feridos e a abertura de um processo da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) à atuação da polícia.
O grupo Mães pela Acampada surgiu na sequência das cargas policiais, formado principalmente por mães e familiares de jovens manifestantes, procurando garantir o respeito pelo direito fundamental ao protesto pacífico e à manifestação.
Os manifestantes exigem, entre outras coisas, a reversão da nova lei do arrendamento, um travão à aquisição de habitação por parte dos fundos imobiliários e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.