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Crónicas

O preço do silêncio

Há quem seja silenciado por dizer a verdade. E há quem aprenda a silenciar-se para manter o vínculo

Ontem assinalou-se o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas. Uma data que me toca pela profissão que escolhi, ou que me escolheu, e pela liberdade de expressão. Ainda assim, há jornalistas perseguidos, presos e assassinados por fazerem perguntas e revelarem aquilo que muitos preferiam esconder. O jornalismo ensinou-me que uma pergunta pode incomodar, uma resposta pode contrariar interesses e uma verdade pode ter consequências. Também me ensinou que aquilo que fica por perguntar pode ser tão ou mais importante do que aquilo que se publica. A censura procura controlar aquilo que pode ser dito. Mas há outra forma de silenciamento que me inquieta: quando o silêncio deixa de ser imposto e passa a ser uma escolha quase inconsciente.

É assim que a autocensura se instala. Começa quando, em bom português, damos connosco a pisar ovos. Evitamos uma pergunta porque poderá desencadear uma discussão. Escondemos uma opinião para não desagradar. Calamos necessidades que dificilmente serão acolhidas. A tentativa de preservar a paz torna-se um hábito de desaparecimento. Ao longo da minha vida, enquanto mulher, mãe, jornalista e autora, tenho observado como a necessidade de preservar os vínculos pode levar-nos a abdicar da autenticidade. Começa com pequenas cedências. Até percebermos que já não escolhemos livremente o que dizer. Calculamos as palavras para evitar reações indesejadas. Há uma diferença enorme entre escolher o silêncio por serenidade e escolhê-lo por receio. Somos humanos, precisamos de pertencer e de ser autênticos. De nos sentirmos aceites, vistos, reconhecidos e amados, sem representar uma versão de nós próprios mais confortável para os outros. Mas sermos aceites não significa pertencermos verdadeiramente. Podemos passar anos a adaptar-nos às expectativas alheias, convencidos de que assim protegemos os nossos vínculos. Até que abrimos a pestana e nos questionamos: se precisamos de deixar de ser quem somos para continuar na vida de alguém, quem está realmente a ser amado? Nós ou a versão de nós que aprendemos a representar? Perante a possibilidade de rejeição, o nosso sistema nervoso procura segurança e pode encontrá-la na adaptação ou no silêncio. Na neurolinguística recordamos que o mapa não é o território. Cada pessoa interpreta a realidade através das suas experiências, crenças e emoções. Portanto, nada tem significado a não ser o que lhe atribuímos. Isto deveria despertar curiosidade pelo outro. Só que há relações em que a diferença é interpretada como ameaça, a pergunta como acusação, perseguição e a discordância como desrespeito.

Quando uma pessoa precisa de ter sempre razão, a outra pode desistir de ser escutada. E deixar de fazer perguntas é muito diferente de ter encontrado respostas. Pode significar que deixou de acreditar que vale a pena perguntar. A reação a uma pergunta revela mais sobre quem a recebe do que a própria pergunta revela sobre quem a faz. A comunicação consciente convida-nos a reconhecer sentimentos e necessidades e a expressar pedidos sem acusações. Mas não significa assumir sozinho a responsabilidade pela relação. Podemos, e devemos, cuidar das palavras e procurar compreender o outro. A intimidade exige disponibilidade de ambos. Uma relação saudável permite-nos discordar sem recear perder o respeito, o afeto ou a segurança emocional. E aqui encontramos um paradoxo: quando somos autênticos, corremos o risco de perder vínculos. Quando deixamos de o ser para os preservar, corremos o risco de nos perdermos a nós próprios. A autocensura pode manter uma relação aparentemente tranquila. Mas a que preço? A ausência de conflito não é necessariamente presença de paz. E a ausência de palavras não significa ausência de sofrimento. É por isso que me preocupam tanto os silêncios. Os que nos são impostos, os que escolhemos e aqueles a que nos habituamos. Deixamos de reparar nas palavras que engolimos e nas perguntas que adiamos. E aquilo que não dizemos também conta a nossa história. Hoje, recordo os jornalistas que arriscam a liberdade e a vida para que a verdade não seja enterrada. E partilho uma reflexão: quantas vezes deixamos de fazer perguntas, de procurar respostas ou de dizer aquilo que sentimos, e não porque tenha deixado de ser importante, mas porque receamos aquilo que podemos descobrir ou a reação de alguém? A verdade nem sempre é confortável ou corresponde àquilo que gostaríamos de ouvir. Só que só podemos transformar aquilo que estamos dispostos a reconhecer. E o silêncio está longe de nos proteger daquilo que receamos. É que há silêncios que escolhemos por liberdade e outros que nos fazem perder a liberdade de escolher.