A pobreza mais ecológica da Europa
Às vezes, dá-me ideia de que, em certas reuniões do Governo, a vida dos portugueses é vista como um filme de ficção científica. Só assim se explica que, na quarta-feira, 28 de outubro, em pleno debate do Orçamento, o Governo tenha anunciado um apoio de até 80% à compra de carros eléctricos por famílias carenciadas. Confesso que fiquei aliviado. Finalmente alguém percebeu qual é o verdadeiro problema das famílias portuguesas, e não é a renda, nem o cabaz alimentar, nem a factura da luz, mas sim o velho Corsa estacionado à porta.
Façamos as contas. O Governo fixou em 15 mil euros, sem IVA, o valor máximo elegível. Com uma comparticipação de 80%, o Estado paga até 12 mil euros e a família fica com os restantes 3 mil, mais o IVA: num carro que chegue ao limite, são cerca de 6.450 euros do próprio bolso. Pode parecer pouco a quem anuncia a medida, mas para uma família carenciada são meses de comida, transportes e medicamentos. E quem tem essa quantia disponível para comprar um carro novo dificilmente corresponde ao perfil de vulnerabilidade que o Estado diz querer apoiar.
E se a família não tiver esse dinheiro? Nada que um crédito ao consumo não resolva, essa grande tradição nacional que tanto tem feito pelo equilíbrio financeiro dos portugueses. Na prática, uma medida pensada para quem tem menos pode acabar por empurrar essas famílias para mais dívida, hipotecando rendimentos futuros para comprar um bem que, mesmo subsidiado, continua caro.
Entretanto, os jornais fizeram as contas ao pacote completo entre famílias carenciadas, microempresas e incentivos à população em geral, o Governo prepara-se para financiar cerca de 40 mil carros eléctricos, quase metade do mercado nacional. É um número impressionante, sobretudo num país onde construir 40 mil casas a preços controlados parece exigir décadas de estudos, grupos de trabalho e anúncios sucessivos, enquanto 40 mil automóveis cabem num discurso orçamental.
Resolvida a compra, resta o pequeno detalhe de saber onde carregar o carro. Para quem vive num terceiro andar sem garagem, talvez uma extensão pela janela da cozinha resolva. Nos bairros onde estacionar já é uma proeza, resta rezar para que o posto público esteja livre e a funcionar. Quanto à electricidade, essa mesma que tantas famílias já têm dificuldade em pagar, passa a ser consumida com consciência ambiental, o que, infelizmente, não torna a factura mais barata.
Falando a sério, nada tenho contra os carros eléctricos. O problema está nas prioridades e na distância entre quem desenha a medida é quem deveria beneficiar dela. Um apoio que pressupõe poupanças, um sítio para carregar e alguma estabilidade financeira arrisca-se a chegar sobretudo a quem já tem tudo isso. E se a única forma de o aproveitar for pedir um empréstimo, não estamos a aliviar a pobreza estamos apenas a dar-lhe uma prestação mensal.
Como as regras ainda não foram publicadas, há margem para aproximar a medida da realidade, como incluir eléctricos usados, pensar em quem não tem garagem e perguntar, com honestidade, se o mesmo dinheiro não faria mais pelas famílias nos transportes públicos, no apoio à renda ou na eficiência energética das casas.
A transição energética é necessária, mas não pode passar à frente de uma transição social que continua por fazer. Para muitas famílias, a prioridade não é trocar de carro, mas sim pagar a casa, pôr comida na mesa, aquecer-se no Inverno e chegar ao trabalho sem rebentar com o orçamento.
A pobreza não precisa de um carro novo para ser mais ecológica. Precisa de condições para deixar de ser pobre.
Zózimo Castro