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Madeira

Vigário-geral alerta para músicas impróprias nos casamentos

Marcos Gonçalves recorda algumas propostas que incluíam jazz, temas de Mafalda Veiga e até a banda sonora da Guerra das Estrelas

Foto Facebook da Sé do Funchal
Foto Facebook da Sé do Funchal

As músicas que marcaram o namoro, os grandes êxitos comerciais, do pop ao rock, e até bandas sonoras de filmes fazem, por vezes, parte das escolhas dos noivos para os casamentos religiosos. Mas nem sempre essas preferências são compatíveis com a celebração do sacramento do Matrimónio. O alerta é deixado pelo cónego Marcos Gonçalves, vigário-geral da Diocese do Funchal e pároco da Sé, que considera necessário um maior cuidado na selecção dos músicos e dos repertórios utilizados nas cerimónias.

Numa reflexão que publicou nas redes sociais, o sacerdote partilha algumas experiências acumuladas ao longo dos anos, revelando que já recebeu propostas musicais pouco habituais para celebrações religiosas. "Um casal queria apenas jazz. Outro desejava entrar ao som da banda sonora da Guerra das Estrelas. Outros sugeriram músicas de Mafalda Veiga ou o conhecido Amar pelos Dois, que nos deu a vitória na Eurovisão", recorda.

Embora reconheça que estas composições possam ter um significado especial para os noivos, Marcos Gonçalves sublinha que nem todas são apropriadas para uma celebração religiosa. "Uma coisa é a música que marca a história de amor de um casal; outra é a música própria para celebrar o sacramento do Matrimónio. Nem tudo o que é bonito é adequado a todos os momentos."

Uma das situações que mais se repetem, segundo o cónego, envolve o conhecido tema "Hallelujah", de Leonard Cohen, frequentemente sugerido por músicos profissionais para a aclamação ao Evangelho.

"Já perdi a conta às vezes que ouvi esta proposta!", admite, esclarecendo que, apesar da qualidade da composição, não se trata de um cântico litúrgico. "O facto de uma música repetir a palavra 'Aleluia' não significa que seja um cântico apropriado para a Missa. Convém conhecer o texto antes de o cantar."

"A liturgia não é um espectáculo musical"

O vigário-geral manifesta preocupação com a falta de preparação de alguns grupos musicais contratados para os casamentos. Conta que, durante os encontros de preparação com os noivos, é frequente descobrir que já escolheram os músicos, mas desconhecem em que momentos da cerimónia poderão interpretar as músicas seleccionadas.

"Por vezes, tenho a sensação de que primeiro se escolhe o repertório e só depois se tenta descobrir onde encaixá-lo na Missa. Ora, a liturgia não é um espectáculo musical com alguns momentos religiosos pelo meio", critica.

O sacerdote considera que o problema resulta, muitas vezes, do desconhecimento das regras e da riqueza musical da Igreja, e não propriamente de falta de boa vontade.

Por isso, defende que os músicos contratados para cerimónias religiosas devem possuir conhecimentos básicos de liturgia e um repertório adequado aos diferentes momentos da celebração.

Entre os cânticos previstos numa Missa de Matrimónio estão os de entrada, o salmo responsorial, a aclamação ao Evangelho, a apresentação dos dons, o Santo, o Cordeiro de Deus, a Comunhão e o cântico final. O sacerdote recorda ainda que o salmo responsorial não pode ser substituído por um poema romântico, devendo ser escolhido entre os salmos bíblicos.

Admite, contudo, maior liberdade musical antes do início e depois do fim da celebração, desde que sejam respeitadas as orientações da Igreja e a dignidade do espaço religioso. É o caso da marcha nupcial para a entrada da noiva ou de uma peça instrumental para acolher o noivo e os padrinhos.

Marcos Gonçalves garante que não pretende desvalorizar os músicos profissionais, reconhecendo o talento e o contributo que podem dar às celebrações. Desafia-os, porém, a aprofundarem os conhecimentos sobre liturgia e a dialogarem previamente com os sacerdotes.

O vigário-geral entende que os próprios padres também têm responsabilidades, nomeadamente no acompanhamento dos noivos e na orientação das escolhas musicais.

"Não basta preocuparmo-nos com a decoração da igreja, as flores, as fotografias ou os horários. A celebração do Matrimónio merece ser preparada com amor, atenção e sentido de fé", sustenta.

Para o cónego, a música não deve servir apenas para emocionar os convidados ou preencher os silêncios da cerimónia. "Um coro não canta apenas para os noivos. Canta para Deus", afirma.

E conclui com uma mensagem dirigida aos casais que se preparam para casar pela Igreja: "Os noivos não vão à igreja para assistir a um concerto, mas para celebrar o amor que os une diante de Deus e receber a graça de um sacramento."