Apagão pretende proteger as aves no pico previsto de saída dos ninhos. SPEA Madeira aponta para diminuição das quedas, mas alerta para excesso de iluminação na costa madeirense.
O ‘mega apagão’ que está agendado para a noite desta sexta-feira insere-se numa iniciativa de sensibilização ambiental promovida pela SPEA Madeira, que convida a população, empresas e instituições da Madeira e do Porto Santo a desligarem a iluminação exterior desnecessária entre as 20 e as 23 horas desta sexta-feira, 30 de Outubro.
O objectivo passa por diminuir a poluição luminosa durante um dos períodos mais delicados do ciclo de vida das cagarras, nomeadamente a saída dos juvenis dos ninhos e os primeiros voos em direcção ao oceano. A organização pretende criar condições mais favoráveis à orientação das aves, diminuindo o risco de colisões e quedas em terra. A iniciativa integra o projecto LIFE Natura@night, cofinanciado pela União Europeia.
Porque foi escolhido o dia 30 de Outubro?
A data coincide com o pico previsto de saída dos juvenis de cagarra dos ninhos. Segundo Cátia Gouveia, coordenadora da SPEA Madeira, esta sexta-feira é precisamente o dia em que se espera registar o maior número de quedas de aves desorientadas.
O período mais crítico decorre entre 15 de Outubro e 15 de Novembro, quando os juvenis, com apenas alguns meses de vida, abandonam as colónias onde nasceram. A redução da iluminação nesta fase pretende criar uma espécie de corredor de segurança que facilite a chegada das aves ao oceano.
Como é que a iluminação artificial afecta as cagarras?
As cagarras são aves marinhas que passam grande parte da vida no oceano, regressando a terra para se reproduzirem. Quando os juvenis abandonam os ninhos, normalmente durante a noite, a iluminação artificial pode interferir com a sua orientação. Em vez de seguirem em direcção ao mar, algumas aves são atraídas pelas luzes de estradas, edifícios, empreendimentos turísticos e outras infraestruturas. Esta desorientação pode provocar colisões com obstáculos ou quedas em zonas urbanizadas, onde ficam expostas ao trânsito, a predadores e a outros perigos. Algumas acabam por morrer, enquanto outras necessitam de ser resgatadas para conseguirem regressar ao oceano.
Quantas cagarras caem anualmente na Madeira?
De acordo com Cátia Gouveia, são registadas, em média, cerca de 200 cagarras caídas por ano. Contudo, os dados recolhidos pela SPEA apontam para uma possível diminuição das ocorrências.
A responsável considera que esta evolução poderá estar relacionada com o trabalho desenvolvido ao nível da alteração da iluminação pública, da sensibilização e da adesão de entidades privadas a práticas de iluminação mais adequadas.
Os resultados são considerados animadores, embora ainda não permitam estabelecer conclusões definitivas sobre a dimensão da redução ou as suas causas.
Quais são os locais mais perigosos para estas aves?
As zonas costeiras com iluminação intensa ou mal direccionada continuam a representar um dos principais problemas. A SPEA identifica situações de holofotes apontados para o mar e para escarpas, bem como equipamentos de iluminação de piscinas e espaços turísticos junto ao litoral.
Segundo Cátia Gouveia, estes problemas persistem em diferentes pontos da Madeira, apesar da crescente sensibilização das entidades responsáveis. A coordenadora reconhece que os municípios têm demonstrado abertura para modificar a iluminação, mas sublinha que ainda é necessário investimento para corrigir situações herdadas do passado. A orientação da luz é tão importante como a sua intensidade, uma vez que equipamentos mal posicionados podem iluminar desnecessariamente áreas sensíveis para as aves marinhas.
Como são identificadas as zonas onde caem mais cagarras?
A SPEA desenvolve um trabalho de monitorização sistemática através de equipas de voluntários que percorrem, durante várias noites consecutivas, trajectos previamente definidos na área de intervenção do projecto. Estes percursos repetem-se anualmente, permitindo comparar os resultados e acompanhar a evolução do número de aves encontradas.
Além de recolherem cagarras desorientadas, os voluntários registam informações sobre os locais das quedas e as características da iluminação existente. Os dados permitem identificar zonas de maior risco, conhecidas como ‘hotspots’, e orientar futuras intervenções.
Segundo Cátia Gouveia, o objectivo é fornecer informação que ajude os municípios a canalizar os investimentos para os locais onde a alteração da iluminação poderá produzir maiores benefícios.
O que fazer se encontrar uma cagarra caída?
Uma cagarra encontrada no chão poderá estar desorientada e necessitar de ajuda. A SPEA recomenda que a ave seja protegida de perigos imediatos, como o trânsito, e que sejam contactadas as entidades competentes para assegurar o seu encaminhamento.
Caso seja necessário recolhê-la, deve ser manuseada cuidadosamente, preferencialmente com recurso a uma toalha, e colocada numa caixa de cartão ventilada, num local escuro e tranquilo. Não deve ser alimentada, receber água ou ser lançada ao ar numa tentativa de a fazer voar. A população pode também colaborar nas campanhas de salvamento, comunicando a localização das aves encontradas às equipas responsáveis.
Apagar as luzes durante três horas é suficiente para resolver o problema?
Não. O apagão constitui sobretudo uma iniciativa de sensibilização integrada numa estratégia mais abrangente de combate à poluição luminosa. “Não é esta noite que faz a diferença, é verdade, mas é algo que está integrado numa abordagem maior”, reconhece Cátia Gouveia.
Essa estratégia inclui campanhas de resgate, monitorização das zonas de queda, elaboração de planos directores de iluminação e promoção de medidas permanentes junto de entidades públicas e privadas.
Estas intervenções integram o projecto LIFE Natura@night, cofinanciado pela União Europeia, que termina no final de 2027. A informação recolhida no terreno deverá contribuir para definir novas prioridades de intervenção e melhorar as condições de iluminação em zonas particularmente sensíveis.
É necessário desligar todas as luzes?
Não. A iniciativa dirige-se especificamente à iluminação exterior que não seja indispensável.
Os cidadãos podem contribuir desligando luzes decorativas, projectores de fachadas, iluminação de jardins e outros equipamentos que não sejam necessários durante a noite.
A redução da intensidade luminosa ou do número de pontos de iluminação ligados também pode ajudar. Devem, contudo, manter-se as condições de segurança das pessoas e da circulação.
Quem está a participar na redução da iluminação?
A iniciativa conta com a participação de autarquias e entidades privadas, incluindo estabelecimentos hoteleiros e outras empresas. Entre os participantes anunciados encontram-se os municípios do Funchal, Santa Cruz, Câmara de Lobos e Machico, além de unidades hoteleiras e infraestruturas aeroportuárias, como o Aeroporto da Madeira e o Aeroporto do Porto Santo. Algumas entidades aderiram também ao galardão 'Noite com Vida', criado no âmbito do LIFE Natura@night para reconhecer organizações que adoptam medidas de redução e melhoria da iluminação exterior.
O galardão contempla três níveis de compromisso, permitindo distinguir diferentes graus de intervenção. Segundo a SPEA, o envolvimento destas entidades procura promover alterações duradouras e não apenas a redução pontual da iluminação durante o apagão.
No sector hoteleiro, estão identificados o INATEL Porto Santo Hotel, o Grupo Cardoso, o Sentido Galo Resort, The Vine, Caju e o Hotel Quinta da Serra. Estas entidades comprometeram-se a reduzir a iluminação exterior durante o período da iniciativa.
A participação está aberta a outros estabelecimentos, instituições e particulares, conforme já noticiado pelo DIÁRIO.
Que outros benefícios tem a redução da poluição luminosa?
A diminuição da iluminação artificial desnecessária não beneficia apenas as cagarras. Segundo a SPEA, estas medidas também contribuem para proteger outros animais de actividade nocturna, nomeadamente insectos e morcegos, que desempenham funções importantes nos ecossistemas.
A utilização de equipamentos mais eficientes e correctamente orientados permite igualmente reduzir o consumo de electricidade e os encargos financeiros associados.
Cátia Gouveia sublinha que o projecto procura conciliar a conservação da biodiversidade com a qualidade de vida das populações e a eficiência energética, demonstrando que a protecção das aves marinhas pode resultar de alterações relativamente simples na forma como os espaços exteriores são iluminados.