52 anos depois de Abril, porque é tão difícil ter uma casa?

Corta-me o coração ver tantos jovens que estudaram, trabalham e querem construir o seu futuro em Portugal, mas não conseguem comprar ou arrendar uma casa que possam pagar. Não pedem luxos. Querem apenas ter um lar, conquistar a independência e começar uma vida com alguma tranquilidade.

Passaram 52 anos desde o 25 de Abril. Salgueiro Maia ajudou-nos a conquistar a liberdade, mas que país estamos a deixar às novas gerações quando tantos jovens, apesar de trabalharem, não conseguem ter uma casa?

Lembro-me também das críticas de Eça de Queirós aos vícios da sociedade portuguesa, aos interesses instalados e à distância entre as promessas e a realidade. Mais de um século depois, algumas continuam surpreendentemente atuais. Portugal mudou muito, e para melhor, mas certos problemas parecem resistir à passagem do tempo.

Segundo o Eurostat, em 2025 os jovens portugueses saíam de casa dos pais, em média, aos 28,8 anos, acima da média europeia de 26,3 anos. As razões são várias, mas os baixos rendimentos face ao custo da habitação tornam a independência cada vez mais difícil.

Desde 1976, sucederam-se governos, sobretudo do PS e do PSD. Houve medidas e investimentos, mas também atrasos e problemas por resolver. Não seria justo afirmar que nada foi feito. Mas também não podemos aceitar que, passadas tantas décadas, trabalhar continue a não ser suficiente para garantir uma habitação acessível.

E na Região Autónoma da Madeira? Quantos jovens trabalham, descontam e continuam sem conseguir comprar ou arrendar uma casa na sua própria terra? Quantos adiam projetos de vida ou ponderam abandonar a Região?

Precisamos de mais habitação acessível, de recuperar imóveis devolutos e de simplificar os licenciamentos sem comprometer a segurança. E porque não estudar a construção pré-fabricada ou modular? Poderá permitir construir mais rapidamente, embora nem sempre a custos inferiores. Na Madeira, seria interessante testar esta solução em terrenos públicos adequados, comparar custos e prazos e divulgar os resultados.

A Constituição reconhece o direito à habitação. Por isso, os responsáveis políticos, nacionais, regionais e locais, devem prestar contas, não apenas pelos programas anunciados, mas pelas casas efetivamente disponibilizadas e pelas famílias que conseguiram uma resposta.

Abril deu-nos a liberdade. Mas não podemos continuar a pedir aos nossos jovens que estudem, trabalhem e permaneçam na sua terra, enquanto ter uma casa onde possam construir o futuro continua, para tantos, fora do seu alcance.

Fernando Santos