DNOTICIAS.PT
Artigos

Sorria, a culpa é sua

Há uma ordem que nos persegue desde o despertador: sê feliz. Não como desejo, mas como dever. As livrarias vendem-na em formato de manual, as redes sociais em formato de gratidão encenada, as empresas em workshops de bem-estar. E quando falhamos, a conta chega: a culpa é nossa. A obrigação de felicidade pode funcionar como mecanismo de culpabilização e de conformismo.

Edgar Cabanas e Eva Illouz chamaram-lhe “happycracia”. O mecanismo é simples e cruel. Se a felicidade depende da atitude, quem sofre só pode estar a falhar. O trabalhador exausto recebe uma sessão de “mindfulness” em vez de um horário decente. O jovem sem casa recebe uma palestra sobre resiliência em vez de uma renda que consiga pagar. Byung-Chul Han chamou-lhe “o empresário de si próprio”: dono dos lucros, mas único responsável pelos falhanços.

Só que, nestas últimas semanas, a Europa respondeu. Em Lisboa, milhares de pessoas protestaram a 17 de Outubro contra a crise da habitação e o custo de vida. No Porto e noutras cidades portuguesas, também. Em Espanha, dezenas de milhares saíram à rua em cerca de 50 cidades pelas mesmas razões. Em Atenas, estudantes montaram tendas na Praça Sintagma contra os custos da habitação e a falta de recursos para o ensino público. Em França, o que começou com liceus bloqueados e pescadores contra o preço dos combustíveis levou marchas e destruição a cerca de 110 cidades. Em Itália, estudantes marcharam contra as condições das escolas e os gastos com armamento.

Nenhum destes manifestantes pediu um curso de gratidão. Descobriram o que a “happycracia” tenta esconder: o mal-estar tem morada, nome e orçamento. A ansiedade de quem não consegue pagar a renda não é um défice de pensamento positivo. É aritmética.

É aqui que o conformismo se desfaz. Mark Fisher descreveu a privatização do estresse: se o sofrimento é um assunto privado, a política torna-se dispensável. Mas basta que milhares de pessoas percebam que a sua angústia é a mesma para que deixe de ser privada. E um negócio que vende resiliência individual perde o cliente no dia em que ele descobre que o problema era colectivo.

É certo que o protesto legítimo pode ser instrumentalizado por grupos extremistas, mais interessados na desordem e no confronto do que na solução dos problemas que dizem defender. Mas seria igualmente perigoso confundir violência de alguns com a legitimidade das reivindicações de muitos. Uma democracia deve saber distinguir a indignação da intolerância, a contestação da destruição, a liberdade de protestar da pretensão de impor pela força.

Porque nem toda a insatisfação é virtuosa, mas também nem toda a tranquilidade é sinal de justiça. E talvez seja precisamente a capacidade de nos indignarmos, sem renunciar à razão, que nos impede de aceitar como inevitável aquilo que poderia ser diferente.

A obrigação de ser feliz e a exploração extremista da felicidade podem representar duas respostas igualmente inadequadas ao descontentamento humano.

Ninguém sensato nega o valor de cuidar da saúde mental. A terapia salva vidas e a psicologia positiva tem os seus méritos. O que se recusa é a chantagem de usar o bem-estar como desculpa para nunca mudar nada, de tratar como doença pessoal o que é escolha política.

Não precisamos de mais sorrisos por obrigação. Precisamos de casas, de escolas, de salários. A felicidade, se vier, virá depois. E virá mais depressa a quem deixou de se culpar.

Uma sociedade saudável não é aquela em que todos se declaram felizes, mas aquela em que ninguém precisa fingir que o é e em que a insatisfação pode transformar-se em mudança, sem se transformar em violência.