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Médicos e associações criticam falta de respostas do SNS à menopausa

Governo anuncia novos programas nacionais e garante que existem respostas nos cuidados primários e hospitalares

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Profissionais de saúde e organizações defendem um acompanhamento especializado e integrado, bem como maior acesso a tratamentos. Governo anuncia novos programas nacionais e garante que existem respostas nos cuidados primários e hospitalares

Médicos e associações ligadas à saúde das mulheres criticam a falta de respostas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) durante a perimenopausa e a menopausa, defendendo um acompanhamento integrado e especializado, maior comparticipação dos medicamentos e o reconhecimento desta fase da vida enquanto questão de saúde e de igualdade. O Governo reconhece a importância de uma resposta adequada e revela que estão a ser preparados novos programas nacionais para a saúde sexual e reprodutiva, que irão incluir a menopausa.

"O SNS não dá resposta às mulheres na perimenopausa e menopausa. No SNS, o poder político ainda não olhou para isto de forma a ter uma visão integrada, desde os cuidados primários até aos cuidados hospitalares", afirma Cláudio Rebelo, presidente da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, em declarações à Lusa.

O médico destaca que 52% das portuguesas têm mais de 45 anos e considera que esta realidade deveria levar o poder político a dar maior atenção ao tema. Defende a criação de uma norma de orientação clínica, que envolva os profissionais dedicados à menopausa e motive os cuidados de saúde primários a acompanhar estas mulheres, bem como a existência de uma via de referenciação directa para consultas hospitalares especializadas.

Actualmente, explica, na ausência de consultas especificamente dedicadas à menopausa, as mulheres são encaminhadas para consultas de ginecologia geral, onde ficam em lista de espera juntamente com outras situações clínicas.

Também Rosa Maria Príncipe, da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, identifica dificuldades no acesso a acompanhamento diferenciado. "Não há ainda uma garantia, para todo o território nacional, de um acesso uniforme a uma consulta especializada em perimenopausa e em menopausa", observa, defendendo mais formação e médicos dedicados à área.

A especialista alerta que a perimenopausa não se resume à irregularidade menstrual. As alterações hormonais podem provocar sintomas físicos, emocionais e cognitivos, mesmo quando não são detectáveis nas análises, afectando a qualidade de vida numa fase em que muitas mulheres estão no auge da carreira profissional.

Amália Martins, médica do Colégio de Ginecologia da Ordem dos Médicos, considera igualmente que o SNS tem "poucas respostas", sobretudo nos centros de saúde. A responsável defende que as mulheres com sintomas que afectem a sua qualidade de vida devem ter acesso a tratamento e lembra que a terapêutica hormonal actual é segura, ao contrário dos receios que persistiram durante anos na sequência de estudos que associaram a terapia de reposição hormonal a riscos para a saúde.

"Estas mulheres vão viver um terço da vida na menopausa. Temos de minorar os sintomas para ter uma boa qualidade de vida. Acho que isso devia ser a aposta de todos os médicos", sublinha.

As associações defendem que o acesso aos cuidados deve ser assumido como um direito e que as mulheres precisam de mais informação para reconhecerem os sintomas e procurarem ajuda. Maria José Alves, presidente da Associação Portuguesa para o Planeamento da Família (APF), considera necessário reforçar a literacia nesta área e combater a ideia de que a perda de qualidade de vida é uma consequência inevitável desta fase.

"É necessário dar um reforço às mulheres e às pessoas para conseguirem realmente solicitar cuidado, perceberem que não é inevitável viver assim, que podem ter uma melhor qualidade de vida", afirma à Lusa.

A responsável alerta, contudo, para o custo dos medicamentos mais recentes, que considera mais seguros e eficazes, mas que não têm comparticipação. "Sem esses medicamentos comparticipados, muitas mulheres que podiam usufruir dos benefícios estão impedidas de o fazer, porque em termos económicos ficam longe de os poderem usar", lamenta.

A APF defende ainda uma resposta mais consistente e protocolada no SNS, assente nos cuidados primários e numa abordagem multidisciplinar, que envolva diferentes especialidades médicas e outros profissionais de saúde.

Também a presidente da Vidas - Associação Portuguesa de Menopausa, Cristina Mesquita de Oliveira, considera que o acesso a cuidados especializados nesta fase da vida deve ser um direito universal. A associação defende que o planeamento familiar seja alargado às consultas de menopausa e que as mulheres tenham acesso a informação segura e isenta de interesses comerciais, para poderem discutir as opções terapêuticas com os seus médicos, sem recorrer à automedicação.

A responsável chama ainda a atenção para as consequências da menopausa na vida profissional. Considera que esta fase constitui um factor de desigualdade entre homens e mulheres enquanto não tiver reconhecimento na legislação laboral, à semelhança do que acontece com a gravidez e a menstruação.

Sintomas como confusão mental, dificuldades de concentração e memória, cansaço, exaustão ou afrontamentos podem afectar a capacidade de trabalho. Por isso, defende que o Estado deve criar mecanismos que impeçam as empresas de penalizar as trabalhadoras que enfrentam estas dificuldades.

Confrontado com as críticas, o Ministério da Saúde reconhece "a importância de uma resposta adequada e integrada às necessidades associadas à menopausa" e informa que a Direcção-Geral da Saúde (DGS) está a desenvolver novos programas nacionais para a saúde sexual e reprodutiva, que incluem esta fase da vida.

Numa resposta escrita enviada à Lusa, a tutela adianta que os programas pretendem promover uma vivência saudável da sexualidade e prevenir doenças e perturbações associadas, estando também previstos materiais informativos sobre a pré-menopausa e a pós-menopausa. Estes deverão abordar sintomas, práticas recomendadas e terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas, podendo apoiar igualmente os profissionais de saúde, incluindo os da Linha SNS 24.

O Ministério da Saúde considera que, pela natureza transversal do tema, a resposta deve ser integrada em estratégias e programas mais abrangentes, em vez de assentar na criação de instrumentos estratégicos separados. Garante ainda que a ausência de uma referência específica à menopausa na proposta de lei do Orçamento do Estado para 2027 não compromete o desenvolvimento dos trabalhos e que as necessidades de financiamento serão definidas em função das medidas a adoptar.

A tutela assegura que o SNS já dispõe de respostas assistenciais para mulheres na perimenopausa e menopausa, tanto nos cuidados de saúde primários como nos hospitalares. A Direcção Executiva do SNS acrescenta que, em Dezembro de 2025, estavam registadas mais de 109 mil mulheres com codificação de queixas ou sintomas associados à menopausa.

Nos centros de saúde, segundo a mesma entidade, é assegurada a avaliação, o acompanhamento clínico e a orientação terapêutica, bem como a referenciação para cuidados especializados sempre que necessário. Ao nível hospitalar, existem consultas específicas de menopausa em algumas Unidades Locais de Saúde (ULS), além de circuitos de referenciação para Ginecologia/Obstetrícia, Endocrinologia e Urologia em todas as ULS.

A Direcção Executiva salienta que o acompanhamento destas mulheres está integrado na actividade assistencial regular do SNS e não depende exclusivamente da existência de consultas especificamente dedicadas à menopausa.