Um hospital não pode ser a última resposta social
Há pessoas que já não precisam de permanecer internadas por razões clínicas, mas continuam no hospital porque, fora dele, ainda não existe uma resposta segura e adequada.
É uma realidade que não pode ser reduzida a expressões como “alta problemática” ou “ocupação de camas”.
Por detrás de cada situação existe uma pessoa e, quase sempre, uma família a tentar resolver aquilo que muitas vezes não consegue resolver sozinha.
Há casas sem elevador. Habitações sem condições para uma cadeira de rodas, uma cama articulada ou uma pessoa dependente. Há familiares que trabalham e não conseguem assegurar cuidados permanentes. Há idosos que vivem sozinhos. Há pessoas que precisam de apoio durante grande parte do dia. E há salários e pensões que simplesmente não permitem pagar uma resposta privada.
Nestas circunstâncias, dar alta não pode significar apenas assinar um documento.
É necessário que exista uma resposta minimamente digna e segura do outro lado.
O hospital não foi criado para substituir um lar, uma unidade de cuidados continuados, apoio domiciliário ou uma rede social que não conseguiu responder.
Manter alguém internado sem necessidade clínica também não é a solução ideal para a própria pessoa, que permanece num ambiente hospitalar quando poderia estar num contexto mais adequado à sua situação.
Ao mesmo tempo, cada cama ocupada por ausência de resposta social deixa de estar disponível para alguém que necessita de cuidados hospitalares.
Por isso, este problema não pode continuar a ser tratado apenas dentro das paredes do hospital.
É uma questão de saúde, mas também de habitação, envelhecimento, dependência, rendimentos, apoio domiciliário, respostas residenciais e capacidade das famílias.
Precisamos de saber quantas pessoas permanecem internadas à espera de resposta social, quanto tempo esperam, que alternativas existem e qual é a capacidade efetivamente disponível.Sobretudo, precisamos de deixar de tratar estas pessoas como se fossem o problema.
A pessoa não é a “alta problemática”.
Problemático é um sistema que consegue tratar a doença, mas depois não consegue garantir uma resposta adequada quando chega o momento de regressar à comunidade.
Um hospital deve cuidar de quem precisa de cuidados hospitalares.
Não pode transformar-se na última resposta social para quem não tem para onde ir.
Com os melhores cumprimentos,
Alexandre Alves