O terceiro lugar no Brasil e a falta de alternativas
O que a polarização faz, venha de que lado vier, é ocupar todo o terreno e não deixar crescer nada no meio
No dia 25 de outubro, o Brasil voltou a escolher entre os dois mesmos nomes. Lula ganhou com 51,79%. Flávio Bolsonaro perdeu com 48,21%. Pouco mais de quatro milhões de votos a separar um país de duzentos milhões de pessoas. Dois dias depois, Lula fez 81 anos. Convém recordar que se candidatou à Presidência pela primeira vez em 1989. São trinta e sete anos a disputar o mesmo lugar. Votou neste domingo muita gente que nasceu bem depois da primeira campanha dele. Do outro lado, o apelido entrou nos boletins em 2018 e nunca mais saiu. Mas o número que me interessa não é nenhum destes mas sim o terceiro. É 2,89%. Foi quanto obteve o terceiro classificado da primeira volta, o escritor Augusto Cury. Três milhões e quatrocentos mil votos. É o pior resultado de um terceiro lugar desde a redemocratização do Brasil.
Em 2014, Marina Silva teve 21,32%. Em 2010, 19,33%. Em 2018, Ciro Gomes ficou-se por 12,47%. Em 2022, Simone Tebet por 4,16%. Em doze anos, o espaço para uma terceira hipótese encolheu de um quinto do país para menos de um trigésimo. Na primeira volta, os dois primeiros levaram juntos 92,2% dos votos. A pergunta é se isto é uma escolha dos brasileiros ou se é o sistema que já não deixa entrar mais ninguém. Inclino-me para a segunda hipótese, e não por teoria da conspiração. Por mera factualidade olhando para o desenho atual. Uma segunda volta entre dois candidatos obriga matematicamente à consolidação, e o voto útil trata do resto. Quem pondera votar numa terceira via é, num sistema atual tão polarizado, pressionado de imediato com a velha história de estar a ajudar o inimigo. A alternativa morre antes de nascer, não nas urnas, mas na conversa de café que antecede as urnas. Junte-se o dinheiro e o tempo de antena, distribuídos em função da representação que já existe. Quem está dentro é financiado para continuar dentro. Quem está fora paga do bolso para tentar entrar.
Há ainda a parte que me parece mais reveladora de todas. Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliária em Brasília, condenado pelo Supremo a 27 anos e três meses pela tentativa de golpe de Estado. Está inelegível e nem sequer pôde votar nesta eleição. Retirou-se o homem e o polo ficou intacto. O filho chegou aos 48,21% na corrida presidencial. A mulher foi eleita senadora pelo Distrito Federal, com mais de 938 mil votos e mandato de oito anos e diz-se que pode ser a próxima da fila Bolsonaro na corrida à presidência. Outro filho foi eleito senador por Santa Catarina, com mais de dois milhões de votos e mandato até 2035. Mais dois familiares entraram na Câmara dos Deputados. Quando o apelido substitui o partido, já não estamos a falar de um candidato. Estamos a falar de uma dinastia.
Os dois polos não são a mesma coisa mas o efeito sobre o sistema é igual. O que a polarização faz, venha de que lado vier, é ocupar todo o terreno e não deixar crescer nada no meio. O que me parece estranho é um país como o Brasil, com tantos problemas estruturais, pobreza disseminada e uma classe média que teima em não conseguir descolar de um salário equivalente ao salário mínimo em Portugal, mesmo com tanta riqueza natural e um dos solos mais férteis para plantar ou visitar se tenha deixado entrincheirar em dois extremos e não consiga encontrar uma terceira via sólida, que cative os muitos moderados que por lá seguramente existem. Estão todos tão obcecados em votar para mandar abaixo o outro lado que se esquecem valores e ideais deixando o palco para a mediocridade. Vota-se mais contra alguém do que por convicção. Uma democracia saudável não se mede pela qualidade dos dois primeiros. Mede-se pelo que acontece a quem quer votar em mais alguma coisa.
No Brasil, essa resposta cabe hoje em 2,89%. E não, a culpa não é dos eleitores, é das sucessivas oportunidades que foram dadas a movimentos mais moderados e democráticos que traíram a confiança de quem votou neles. Veremos se por cá não nos acontecerá o mesmo. Se as pessoas não perderão também a paciência e o medo do “papão” e não darão em breve a possibilidade a André Ventura de ser Primeiro Ministro. É que o povo está tão farto de ver os mesmos resultados mesmo que com nomes diferentes que pode, num ato de desespero tentar encontrar a esperança num sítio diferente. E se essa possibilidade um dia se concretizar surgirá com toda a certeza alguém no polo oposto para o tentar derrubar.
Há pelo menos uma certeza no meio disto tudo, por variadíssimas razões, a política atrai cada vez menos gente de topo, elogiada pelos seus pares, com qualidade sobejamente reconhecida e ética inatacável. Navegamos num perigoso mar de mediocridade.