Essenciais no serviço, invisíveis na carreira
Há profissões que só parecem ganhar visibilidade quando faltam.
Na saúde, os Técnicos Auxiliares de Saúde fazem parte dessa realidade. Estamos presentes no transporte e mobilização de doentes, nos cuidados de higiene e conforto, no apoio às equipas, na preparação e funcionamento de diferentes espaços e em inúmeras tarefas que, sendo discretas para quem observa de fora, são indispensáveis para que os serviços funcionem todos os dias.
É precisamente por isso que custa compreender como uma profissão considerada essencial no terreno continua a sentir tanta dificuldade em ver reconhecidos, de forma proporcional, a experiência, o desgaste e a responsabilidade acumulados ao longo dos anos.
A criação da carreira de Técnico Auxiliar de Saúde foi um passo importante. Mas criar uma carreira não pode significar apenas mudar uma designação.
É necessário garantir que todos os trabalhadores que efetivamente exercem funções correspondentes e que reúnem os requisitos previstos tenham o devido enquadramento, evitando situações em que pessoas a desempenhar, na prática, tarefas semelhantes permaneçam integradas em carreiras diferentes e com condições remuneratórias distintas.
Também é preciso olhar com seriedade para a progressão.
Não faz sentido que trabalhadores com muitos anos de serviço sintam que toda essa experiência se traduz numa diferença remuneratória reduzida relativamente a quem acabou de entrar. Muito menos faz sentido que atrasos nas avaliações, pontos por regularizar ou procedimentos administrativos pendentes acabem por condicionar carreiras durante anos.
Quando uma avaliação fica atrasada por motivos que não dependem do trabalhador, não pode ser esse trabalhador a suportar indefinidamente as consequências.
Deveria existir um mecanismo justo e juridicamente sólido de regularização das avaliações em atraso, capaz de recuperar os efeitos que teriam ocorrido se a Administração tivesse cumprido os seus próprios prazos e de permitir a progressão daqueles que, com essa regularização, reúnam as condições necessárias.
Porque a carreira de um trabalhador não pode ficar parada porque a máquina administrativa ficou.
Também precisamos de falar do desgaste.
Mobilizar pessoas dependentes, trabalhar por turnos, lidar diariamente com doença e sofrimento, realizar esforço físico repetido e estar exposto a riscos biológicos tem consequências ao longo dos anos.
Não é dramatizar a profissão. É reconhecer aquilo que ela exige.
Por isso, merece ser discutido de forma séria e tecnicamente fundamentada o reconhecimento do risco e do desgaste associados a estas funções, bem como uma valorização remuneratória que tenha em consideração a responsabilidade, a exigência física e a realidade diária destes profissionais.
E existe ainda uma realidade que nem sempre cabe nos rácios.
Uma folha de cálculo pode indicar que existem profissionais suficientes. O terreno pode mostrar alguém sozinho a assegurar aquilo que, pelas características do serviço ou pelas necessidades dos doentes, exigiria duas pessoas.
Pode mostrar um profissional a responder simultaneamente a diferentes espaços e tarefas, enquanto no papel o número global parece suficiente.
É essa distância entre os números e a realidade que precisa de ser reduzida.
Também feriados, descansos compensatórios e outros direitos associados à organização do trabalho devem ter respostas claras e atempadas, evitando que situações pendentes se prolonguem indefinidamente.
Os Técnicos Auxiliares de Saúde não querem ser tratados como mais importantes do que qualquer outra profissão.
Querem apenas que aquilo que lhes é exigido todos os dias tenha correspondência no reconhecimento da carreira, na remuneração, nas condições de trabalho, na progressão e no respeito pelos seus direitos.
Porque ser essencial quando o serviço precisa de nós e invisível quando chega a hora de valorizar a carreira não pode continuar a ser normal.
Alexandre Alves