Bandas de Originais na Madeira (V)

Há uma evidência que atravessa três décadas de imprensa regional sobre as bandas madeirenses, existiu, de facto, uma cena rock na Madeira. Em 1995, o jornalista Nélio de Sousa colocou-a no Diário de Notícias, num díptico intitulado, com ironia lúcida, “Rock Ilhéu”. A resposta que encontrou — e que a imprensa regional não deixaria de confirmar, geração após geração — é a de um paradoxo fértil: a Madeira produz bandas com fome e talento a um ritmo notável, mas raramente lhes dá tempo, palco ou editora para crescerem. O concurso da RDP-Madeira, primeiro Super Rock, depois Antena 3 Rock, tornou-se o único rito de passagem de uma cena inteira — “uma porta para o mundo da música”, nas palavras do seu mentor José Carvalho, mas nunca um caminho traçado até ao fim.

E, no entanto, esse caminho foi percorrido. Poucas vezes, mas as suficientes para escrever um capítulo próprio na história do rock ilhéu português. Os Incógnita levaram o heavy metal madeirense a Lisboa e a Penafiel ainda nos anos 90, lado a lado com os suecos Hypocrisy ou os britânicos Cradle of Filth. Os Requiem Laus conquistaram Alcobaça antes de conquistarem o Funchal. Os Caim, meio madeirenses meio continentais, subiram ao palco do Rock in Rio em 2008. Os Outer Skin, chegaram a abrir, em 2004, o Super Bock Super Rock, ao lado de Korn, Muse e Linkin Park — a maior montra festivaleira que Portugal oferecia na altura. E os Karnak Seti, do underground metaleiro do Funchal, ganharam elogio raro: o vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, garantiu publicamente que, a representar Portugal, escolheria esta banda madeirense, “pois não fica a dever nada ao que se faz lá fora”.

Mas é preciso subir mais alto para encontrar os dois nomes que verdadeiramente levaram a Madeira ao mapa internacional da música. Aires Pereira formou a sua primeira banda de garagem em Câmara de Lobos; hoje é baixista dos Moonspell, tocou no Rock in Rio e percorre, há vinte e cinco anos, os palcos do metal mundial, da Alemanha à Grécia, sem nunca deixar de voltar, sempre que pode, para comer bolo do caco e rever as calçadas do Funchal. E, trinta anos antes dele, num concerto quase secreto nas Vespas, uma voz regressava pela primeira vez à sua terra natal: Ana da Silva, fundadora das lendárias The Raincoats, banda britânica que ajudou a inventar um punk que Kurt Cobain viria, mais tarde, a reverenciar.

São estes os dois polos do paradigma madeirense: uma ilha que se queixava, de faltarem palcos, apoios e editoras — e que, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, continuava a lançar ao mundo vozes que já não cabem no seu próprio mar. Como perguntava o documentário “Faça-se Luz”, em 2017: como é possível ser residente na Madeira e, ao mesmo tempo, ter uma carreira? A resposta, ao que tudo indica, não está nos concursos nem nos apoios que insistimos em proclamar — está na teimosia de quem, na ilha ou não, decide, “tenazmente”, continuar a tocar e criar música.

Duarte Dusan Santos