Bandas de Originais na Madeira (IV)
A ideia de que o rock madeirense foi, nas décadas de 1990 e 2000, um território quase exclusivamente masculino não coincide à evidência. A imprensa regional regista, ao longo de cerca mais de vinte anos presença feminina: vocalistas fundadoras, uma baterista, um coro, uma “formação feminina”, jornalistas que cobrem a cena, e uma cantora a desafiar a instituição gestora do principal concurso de bandas da região. O dado mais eloquente é a frequência com que algumas bandas colocaram uma mulher à frente do microfone, não como curiosidade, mas como opção estrutural e, por vezes, fundadora.
O caso mais antigo é o dos Et7ra, formados em 1993, com Joana Machado na voz, vencedores de uma das primeiras edições do Super Rock (Super FM/RDP-Madeira) e autores de um dos primeiros CDs de originais da cena. Anos depois, Machado protagonizou um dos raros episódios de contestação direta às instituições do meio. Padrão semelhante repete-se com Evy Fernandes, que em 2007, ainda adolescente, se torna vocalista dos Opium, substituindo Fábio Pires. O perfil que a imprensa lhe dedica revela obstáculos sociais e familiares de uma jovem a chegar ao palco. Mais estável é Lucy Kemp, vocalista e autora das letras dos Almagesto/Imago desde 1992 até pelo menos 2008, ano em que a banda gravou dez temas em Londres. O contexto político-cultural ajuda a situar estas presenças. Em 1994, a escultora Manuela Aranha, então Diretora Regional dos Assuntos Culturais, recusa filiar-se a “movimentos” de libertação da mulher, defendendo emancipação individual — “a mulher deve impor-se por si só“ —, embora reconheça que “a mulher era considerada [...] apenas um objeto” nalgumas culturas. Esta posição contrasta com mulheres que, na cena rock, espaço informal à margem das instituições oficiais, já exerciam intervenção direta, através da música, pela voz e pela crítica. Ruby Roque, vocalista dos Extreme Attitude (ativos até cerca de 2005/2006), critica publicamente a falta de oportunidades para bandas madeirenses: “Paga-se bem a uma banda para vir do continente e esquecem-se as da terra [...]”. Prosseguiu depois no projeto internacional Witch Breed, de metal melódico progressivo, em 2006 — outra frontwoman com posição e voz crítica. Há ainda mulheres em papéis estruturais habitualmente masculinos: a Promorock, associação juvenil de bandas rock da Madeira fundada maioritariamente por mulheres, visava “proporcionar mais concertos às bandas madeirenses de rock, promovê-las no exterior e potenciar o gosto pela música”. Sandra Branco lidera os Dul and Nouk White (Dul), banda de rock alternativo fundada em 2010, acumulando voz, guitarra, piano, melódica, percussão e a autoria das letras, cruzando rock, fado, blues, música popular portuguesa e indie/pop, com temas originais e reinterpretações de clássicos provando que esta “Obra” também é feita de “saias”. O papel feminino esteve presente, foi, e continua a ser, um contributo real a todo este legado cultural.
Duarte Dusan Santos