O comando é meu
O mundo oferece-nos muitos canais. A escolha daquele que ocupa o ecrã continua a ser nossa
“A vossa história fez-me voltar a acreditar no amor.”
Li e escutei esta frase muitas vezes nos últimos dias. Houve quem, como o Cláudio Ramos, dissesse que chorou, quem marcasse nas redes sociais alguém que ama, quem partilhasse.
Foram milhares de comentários e mensagens depois da reportagem que o ‘Dois às 10’, da TVI, fez sobre mim, a Madeira e a história improvável que trouxe à minha vida o homem com quem viria a casar, e da nossa ida a estúdio. Pensámos muito antes de aceitar partilhar a nossa história. É nossa e só à nossa família diz respeito. Sentimos que é uma história escrita nas estrelas e, por isso, gostamos de a proteger da maldade do mundo. Acabámos por partilhá-la e uma história tão nossa encontrou lugar na história de milhares de pessoas.
Há uma fome de boas histórias. Ainda queremos acreditar que duas pessoas podem chegar de mundos diferentes e, mesmo assim, reconhecer-se.
Foi isso que milhares de pessoas viram. Amor.
Claro que também houve quem visse primeiro a cor da pele. Foram poucos, felizmente, mas chegaram comentários racistas, a grande maioria vindos de homens. Não lhes vou chamar “comentários menos felizes”. Nem tampouco “opinião”.
Racismo é racismo. Um já seria demais. Mas não foram a maioria.
Gosto de olhar para nós, humanos, como televisões. Há muitos canais disponíveis ao mesmo tempo, mas no ecrã só aparece aquele em que estamos sintonizados. E há um comando na nossa mão. Podíamos ter escolhido o canal da ignorância. Material não faltava: racismo, julgamentos, certezas sobre duas pessoas que não conheciam. Podíamos ter amplificado tudo isso. Só que não. Havia outro canal. Incomparavelmente maior. Milhares de pessoas a falar de amor, a contar as suas histórias, a marcar quem amam, a dizer que tinham voltado a acreditar.
Não escolhemos tudo aquilo que é emitido. Mas podemos escolher o canal a que damos atenção. E aquilo a que damos atenção acaba por ocupar o nosso mundo e, inevitavelmente, o mundo daqueles que vivem perto de nós.
Nas caixas de comentários, basta uma figura pública aparecer na televisão para que haja quem se sinta habilitado a fazer a análise psicológica de quem nunca viu. Diagnostica caráter, intenções e até o casamento. Em poucos minutos.
Nós, jornalistas, perguntamos, escutamos, cruzamos informação, validamos e procuramos contexto antes de fazermos uma reportagem. Nas redes sociais, basta um frame. Uma impressão transforma-se numa certeza. E uma certeza numa sentença.
E tanta raiva faz-me pensar. O que leva alguém a parar o que está a fazer para tentar magoar uma pessoa que não conhece? Desconfio que sei, mas vou guardar para mim. Sei que não quero, nem vou, devolver na mesma moeda.
Mostrei às minhas filhas comentários bonitos e comentários hostis. Elas não vivem numa redoma. Nem quero que vivam. Posso ensiná-las a reconhecer a crueldade e, sobretudo, a decidir o que fazer com ela. Nem sempre podem escolher aquilo que lhes chega, mas podem escolher onde pousam o olhar.
Eu própria não guardo rancores por falta de espaço. O coração e a cabeça já têm pessoas, livros e sonhos. Já devo ter menos tempo de qualidade pela frente do que aquele que vivi. Não vou ainda arranjar lugar para ofensas e raivinhas. Esqueço-me dos insultos com uma facilidade que às vezes me parece amnésia. Lembro-me de ter ficado furiosa e já nem saber porquê. E não, não é negação. É não lhe oferecer residência permanente.
Uma das mensagens dizia que eu “transbordava amor”. Li e sorri. Sou uma pessoa intencional. Coloco intenção no que faço, no que digo e naquilo que escolho alimentar. Quero ver mais amor no mundo. Então é amor que alimento. E depois houve o silêncio. Pessoas que nos viram e viram a reportagem e nada disseram. Também isso me fez pensar. O não comentário é também ele um comentário. Não sei o que significa cada silêncio e seria injusto preenchê-lo com as minhas interpretações e alucinações. Mas sei que o silêncio comunica.
A felicidade dos outros tem uma coisa curiosa. Quando está longe, emociona-nos. Quando se aproxima, pode tornar-se espelho. E os espelhos nem sempre são confortáveis. Por isso me tocou tanto o que veio de desconhecidos. Não nos deviam nada. E pararam para escrever. Partilharam dores, recomeços e a vontade de voltar a acreditar.
Na verdade, aquelas mensagens nunca foram sobre nós. Cada pessoa encontrou na nossa história um pedaço da sua, ou da história que ainda deseja viver.
Uns olharam para a nossa história e viram cor. Outros ficaram em silêncio. Milhares viram aquilo que verdadeiramente nos une.
Continuamos a querer acreditar que duas pessoas diferentes, com histórias diferentes, podem reconhecer-se, escolher-se e caminhar lado a lado.
Pensámos muito antes de abrir ao mundo uma história que sempre quisemos proteger do mundo. Ainda bem que abrimos. Houve maldade, é verdade. Mas entrou muito mais luz.
O mundo oferece muitos canais. Só que o comando é meu, está na minha mão. E eu sei onde quero ficar.
Amor gera amor.