Bandas de Originais na Madeira (II)

Entre 2006 e 2011, a cena de Rock e Metal da Madeira sobreviveu apesar de quase tudo lhe ser contrário, incluindo um público que preferia sistematicamente um DJ a uma banda, exceto de “covers”, ou aficionados em “concursos”. Um núcleo obstinado de músicos, associações e promotores amadores manteve-a viva — paradigma de uma comunidade obrigada a inventar as próprias condições de existência. O concurso “Ant3na Rock” cessou em 2006 e revelava um limite estrutural. Ricardo Fernandes, dos Requiem Laus, resumiu-o em 2007: as bandas nasciam à boleia do concurso e depois desapareciam por falta de regularidade de eventos onde tocar; tocar uma vez por ano era, no mínimo, desmotivador. O concurso produziu bandas, mas o “movimento” continuava. “Rock é um parente pobre da música na Região”, frase de Luís Erre (Exordya/Karnak Seti), de 2010, funciona como diagnóstico cru do período. O problema não era a qualidade: Fernando Ribeiro, dos Moonspell, disse que, havendo uma banda madeirense a representar o heavy metal nacionalmente, gostaria que fosse os Karnak Seti, por nada deverem ao que se fazia no continente. O problema era a infraestrutura: só o Rock's Club, no Caniço Shopping, acolhia regularmente sonoridades extremas, e a insularidade tornava incomportável trazer cartazes ao nível do Optimus Alive ou do Sudoeste. A Promorock (Associação de Bandas Rock da Madeira), nascida em 2005, com Filipa Freitas, Priscila Santos, Carolina Patrício e Catarina Silva, assumiu, sem fins lucrativos e com “280 amantes do Rock”, uma tarefa que nenhuma entidade pública ou privada parecia abraçar. Organizou concertos no Rock's Club, na Fnac, no Kool Klub Kafé e no Amazónia Bar, etc; promoveu workshops gratuitos com músicos das próprias bandas, e trouxe em 2010, pela primeira vez à ilha, os The Firstborn, sem subsídios, e ainda funcionava por voluntariado. Fica também a coexistência entre veteranos e uma vaga nova, do pós-Antena 3 que em 2009 se juntou em eventos próprios — o melhor argumento contra a ideia de que a cena estava moribunda. Luís Jardim, músico madeirense com décadas de carreira lá fora participava num bandcasting quando, impressionado com “a quantidade de bandas com grande qualidade” que via na Região, anunciou em público que gostaria de organizar um festival de música. No dia seguinte, foi contactado por um vereador da Câmara Municipal de Santa Cruz. Numa reunião de meia hora, sugeriram-lhe uma data para 2011, um espaço — a Camacha — e um nome: “Mountain Rock”. Só mais tarde percebeu que esse nome já existia. “Mountain Rock” era, na verdade, a designação dada ao dia dedicado ao rock, a 21 de agosto, dentro das Festas do Concelho de Santa Cruz — um evento que já ia na sua enésima edição informal. “Como não vivo na Madeira, desconhecia que esse afinal era o nome dado ao dia dedicado ao rock”, explicou Jardim, que fez questão de se distanciar do formato já existente: Mesmo assim, o nome colou-se ao evento de 2010, e foi debaixo dessa bandeira que a Camacha recebeu, a 21 de agosto, dez bandas de Rock e Metal madeirenses.

Estas bandas não foram sustentadas por infraestruturas, ou prioridade, mas por músicos e promotores, até em alguns casos institucionais com uma visão politico-cultural abrangente, que o permitiam que acontecesse. Definidas pela fragilidade estrutural e pela obstinação humana, este “movimento” não teve consagração, teve sim anos de trabalho quase anónimo, de gente que criava e acreditava que valia a pena, e, muitos deles, mesmo em “silêncio”, ainda o perpetuam.

Duarte Dusan Santos