Bandas de Originais na Madeira (III)

A cena de bandas madeirenses de rock, metal e pop, documentada pela imprensa regional desde os anos 1990, sobretudo através de concursos como o “Antena 3 Rock”, cruzou-se com as artes plásticas em formas complementares: eventos multidisciplinares que colocavam bandas e artistas plásticos no mesmo cartaz ou espaço, por vezes com pintura ao vivo durante o concerto; e uma apropriação mais pessoal, em que a identidade visual dos discos (capa, ilustração, grafismo) passava a ser obra direta de artistas visuais madeirenses, tornando essa obra parte inseparável da música. O padrão repete-se com uma consistência que sugere um traço estrutural, não um episódio isolado. O exemplo mais duradouro é o Festival de Arte Camachense (”Art’Camacha”): rock e artes plásticas, lado a lado, ano após ano, como forma habitual de organizar os eventos musicais mais participados. Padrão semelhante surge na Festa da Juventude, onde concursos de bandas e mostras de artes plásticas partilhavam programa como escolha recorrente. Em 2009, o “Engenho de Artes” (Calheta) propunha-se criar “um diálogo entre o património, as artes plásticas e a música”, levando essa troca “a um público mais amplo, não apenas os habitués das galerias e museus” (Lucilina Freitas). Em 2011, o “On by Porto Bay” radicalizou a lógica como exercício de “fusion art”: mais de 35 artistas plásticos de Espanha, Portugal continental e Madeira, em escultura, pintura e ilustração, complementavam uma programação com mais de vinte agrupamentos musicais, do clássico à bossa nova, do rock à música étnica.

O formato mais ambicioso foi o MAOS - Music Art Out Sessions, criado em 2014 pelo DIÁRIO e pela Câmara do Funchal. Na edição de 2015, escultura, pintura, fotografia, desenho, caricatura, tatuagem e design de moda partilharam cartaz com projetos musicais madeirenses, reunindo nomes como Bárbara Campos, Telmo Gonçalves Silva, Pepe Batista, Óscar Gonçalves, Olga Drak, Mário Ramos e José Zyberchema.

Um caso mais intimista: “Rock n’humor com pincel” (Fábrica dos Bordados, 2014) juntou um concerto acústico de Reno Ramos (Noise Riders, Karnak Seti) à exposição “Pontos e Linhas” de Fátima Spínola, do coletivo Mad Space Invaders - o próprio título assumindo a fusão como conceito.

A fusão tornou-se simultaneidade literal entre obra visual e obra discográfica. Em 1994, os Incógnita anunciavam o mini-CD “Life’s a Bitch” com capa da pintora Lígia Gontardo - o registo mais antigo encontrado. Em 2008, os Karnak Seti (death metal melódico) lançavam o demo “Stranded By Existence” com arte gráfica de Ana Gomes. Em 2019, os Men on the Couch levaram a prática mais longe: no álbum de estreia, “a cada tema corresponde uma ilustração” de Laura Andrade, sendo “a capa [...] uma reflexão clara das canções” - a junção das ilustrações resultando na própria capa, numa autoria musical-plástica quase indissociável. No mesmo ano, os Lacerta Dugesii apresentavam “Ritual” com design gráfico de Juan Abreu. Mais do que moda passageira ou nicho, trata-se de uma prática recorrente, multidisciplinar e transversal, atravessando mais de duas décadas de discografia madeirense.

Duarte Dusan Santos