Moções de censura são uma “miragem” na Madeira?
“No continente não há medo em avançar com moções de censura sempre que há motivos. Na Madeira, em 50 anos de Autonomia, isso é uma miragem.”
A afirmação foi enviada ao DIÁRIO pelo leitor Nuno Freitas e estabelece uma comparação entre a utilização das moções de censura na Assembleia da República e na Assembleia Legislativa da Madeira. Quando se cumprem 50 anos sobre as primeiras eleições legislativas regionais, o DIÁRIO foi consultar o histórico parlamentar para perceber se este instrumento de fiscalização política foi, de facto, residual na Região.
A primeira parte da afirmação contém necessariamente uma apreciação subjectiva. Determinar se existem “motivos” para apresentar uma moção de censura depende da avaliação política de cada partido. Já a frequência com que este mecanismo foi utilizado pode ser confrontada com os factos.
E os números revelam uma diferença considerável entre os dois parlamentos, embora não permitam concluir que as moções tenham sido uma “miragem” na Madeira.
Desde a instalação dos órgãos de governo próprio, em 1976, foram apresentadas 12 moções de censura ao Governo Regional. Sete tiveram como alvo executivos presididos por Alberto João Jardim e cinco foram dirigidas a governos de Miguel Albuquerque.
A primeira remonta a Fevereiro de 1982, quando a UDP avançou com uma moção contra o Governo de Alberto João Jardim. A iniciativa não chegou a ser votada. Seguiu-se um longo intervalo de 26 anos até que, em 2008, o PCP recuperou este instrumento parlamentar. Muito provavelmente devido ao facto de os social-democratas terem obtido sempre maiorias musculadas, suficientes para obliteraram qualquer censura.
Os comunistas apresentaram três moções num espaço de quatro anos: em Maio de 2008, Maio de 2009 e Março de 2011. Todas foram rejeitadas pela maioria absoluta do PSD.
Em Maio de 2012 foi a vez do PS. A iniciativa também não chegou à votação, tendo os socialistas decidido retirá-la devido à ausência de Alberto João Jardim do debate.
No ano seguinte ocorreram duas moções em dias consecutivos. O PTP avançou a 13 de Março de 2013 e o PS a 14 de Março. Ambas foram rejeitadas. Alberto João Jardim terminou, assim, os seus cerca de 37 anos à frente do Governo Regional tendo sido confrontado com sete moções de censura.
Albuquerque caiu
A substituição de Jardim por Miguel Albuquerque não pôs fim ao recurso a este mecanismo. Pouco mais de um ano depois da mudança na presidência do Governo, o PCP apresentou, em Junho de 2016, uma nova moção de censura.
Foi rejeitada. O PSD votou contra, o CDS-PP absteve-se e PS, JPP, PCP, BE, PTP e o deputado independente votaram favoravelmente.
Em Novembro de 2017, foi o PS a avançar. Também esta iniciativa foi rejeitada, mantendo-se então a maioria absoluta parlamentar do PSD.
Seria, contudo, em 2024 que a utilização das moções de censura ganharia uma dimensão inédita na história da Autonomia.
Em Janeiro, na sequência da crise política provocada pela investigação judicial que atingiu o Governo Regional, PS e Chega apresentaram separadamente duas moções de censura. Nenhuma chegou a votação. A demissão de Miguel Albuquerque retirou, entretanto objecto às iniciativas e ambas acabaram por ser retiradas.
A situação seria diferente poucos meses depois.
Em Novembro, o Chega apresentou uma nova moção de censura ao XV Governo Regional. Discutida e votada em 17 de Dezembro de 2024, tornou-se a primeira a ser aprovada na história da Autonomia.
PS, JPP, Chega, PAN e IL reuniram 26 votos favoráveis, enquanto PSD e CDS-PP somaram 21 votos contra. Não houve abstenções. A aprovação da moção determinou a demissão do Governo Regional e conduziu a Madeira a novas eleições legislativas.
Ou seja, das 12 moções apresentadas ao longo da história autonómica, uma produziu a consequência política máxima prevista para este instrumento: derrubou o Governo.
República soma 37
A comparação com a Assembleia da República confirma, contudo, uma parte importante da afirmação do leitor Nuno Freitas: em Lisboa, o recurso às moções de censura foi substancialmente mais frequente.
Desde 1976 foram apresentadas 37 moções de censura na Assembleia da República, contando já com a iniciativa entregue pelo Chega em 2 de Setembro de 2026, contra o XXV Governo Constitucional de Luís Montenegro.
Até 2024 tinham sido contabilizadas 34. Em 2025 juntaram-se outras duas, apresentadas pelo Chega e pelo PCP, e a nova iniciativa deste mês elevou para 37 o total desde o início da actual democracia constitucional.
Em números absolutos, foram, portanto, apresentadas na República pouco mais de três vezes mais moções de censura do que na Madeira: 37 contra 12.
A diferença é significativa. Há, porém, que considerar também a distinta realidade parlamentar. Durante grande parte da história da Autonomia, o PSD dispôs de maiorias absolutas na Assembleia Legislativa, o que tornou praticamente impossível à oposição reunir os votos necessários para fazer aprovar uma moção de censura. Ainda assim, UDP, PCP, PS, PTP e Chega recorreram ao mecanismo em diferentes momentos.
E existe outro dado que relativiza a diferença entre os dois parlamentos. Apesar das 37 moções apresentadas na Assembleia da República, apenas uma foi aprovada.
Aconteceu em Abril de 1987, quando o PRD censurou o X Governo Constitucional, minoritário, liderado por Cavaco Silva. A iniciativa recebeu 134 votos a favor, 108 contra e uma abstenção, provocando a queda do executivo. As eleições antecipadas que se seguiram dariam ao PSD de Cavaco Silva a primeira maioria absoluta de um único partido na democracia portuguesa.
Quase quatro décadas depois, a Madeira registou o mesmo resultado pela primeira vez, quando a moção apresentada pelo Chega derrubou o Governo de Miguel Albuquerque.
O balanço permite, assim, estabelecer uma diferença quantitativa inequívoca: 37 moções de censura apresentadas na República e 12 na Madeira. Mas o desfecho máximo deste mecanismo parlamentar ocorreu exactamente uma vez em cada caso: uma queda de Governo na República e outra na Região.
A afirmação do leitor contém, por isso, uma parte sustentada pelos números: as moções de censura foram bastante mais frequentes na Assembleia da República. Já dizer que constituíram uma “miragem” durante 50 anos de Autonomia exagera a realidade. Na Madeira foram apresentadas 12, por cinco forças políticas diferentes, e uma chegou mesmo a ser aprovada.