Trump admite condicionar negociações de paz aos Acordos de Abrãao
O Presidente norte-americano, Donald Trump, sugeriu hoje que pode condicionar os termos do fim da guerra com o Irão à adesão de aliados árabes no Médio Oriente aos Acordos de Abraão sobre a normalização de relações com Israel.
"Não tenho a certeza se devemos fechar o acordo se eles não aderirem aos Acordos de Abraão", declarou Trump durante uma reunião com a sua administração na Casa Branca, afirmando que os aliados de Washington no Médio Oriente lhe devem este gesto.
O líder norte-americano levantou esta questão no passado sábado, durante uma conversa telefónica com dirigentes da Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Paquistão e Turquia, no âmbito das conversações de paz com o Irão.
"Gostaríamos que aderissem aos Acordos de Abraão. Seria histórico se o fizessem e, francamente, acho que nos devem isso. Acho que seria um sinal tremendo e acho que estes países nos devem isso", insistiu.
Os Estados Unidos e o Irão intensificaram as negociações indiretas na última semana, através de mediadores do Paquistão, para chegar a um acordo que ponha fim à guerra iniciada em 28 de fevereiro pela ofensiva israelo-americana contra a República Islâmica.
A televisão estatal iraniana divulgou hoje uma minuta de um acordo preliminar que incluiria a reabertura do estreito de Ormuz e o adiamento das negociações sobre o programa nuclear de Teerão, mas a Casa Branca desconsiderou o documento, classificando-o como falso.
No centro das discussões está a reabertura do estreito de Ormuz à passagem do tráfego marítimo, colocado sob ameaça militar pelo Irão, e o programa nuclear iraniano, mas Trump propõe agora também introduzir a adesão de vários aliados, nomeadamente a Arábia Saudita e o Qatar, aos Acordos de Abraão.
A normalização das relações entre a Arábia Saudita e Israel, duas potências regionais parceiras de Washington, mas historicamente adversárias, representaria uma grande mudança geopolítica do Médio Oriente, embora Riade afirme que só o fará quando houver um caminho viável para o estabelecimento do Estado Palestiniano.
A anterior administração norte-americana do democrata Joe Biden (2021-2025) procurou a adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão, mas as negociações foram interrompidas após os ataques do grupo islamita palestiniano Hamas no sul de Israel, em 07 de outubro de 2013, que foram respondidos com uma ofensiva israelita devastadora na Faixa de Gaza.
Os Acordos de Abraão foram promovidos durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021) e permitiram a Israel estabelecer relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Sudão e Marrocos.
Nas suas declarações de hoje, Trump reiterou também a oposição à possibilidade de países como a Rússia ou a China assumirem o controlo dos 'stocks' de urânio enriquecido do Irão, um mecanismo já previsto no acordo nuclear de 2015 com Teerão.
"Não, não me sentiria confortável com isso", respondeu o líder da Casa Branca quando questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de Moscovo e Pequim guardarem o material radioativo com o qual o Irão poderia potencialmente fabricar uma arma nuclear.
O Governo de Pequim manifestou abertura para assumir o controlo de cerca de 440 quilogramas de urânio que o Irão enriqueceu a 60% --- perto dos 90% normalmente necessários para construir uma bomba atómica --- ou submeter estes 'stocks' a um processo de degradação.
Por seu lado, Moscovo ofereceu-se para assumir o armazenamento do urânio enriquecido do Irão, tal como fez no âmbito do acordo nuclear de 2015 entre a República Islâmica, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a União Europeia.
Trump defendeu em diversas ocasiões que um futuro acordo nuclear com o Irão deverá incluir a transferência dos 'stocks' de urânio para os Estados Unidos, rejeitando o envolvimento de países terceiros.
Na abertura da reunião de hoje com a sua administração, o Presidente norte-americano declarou que ainda não está satisfeito com o resultado das negociações com o Irão e voltou a colocar a hipótese de retomar a ofensiva militar para "terminar o trabalho".
"O Irão está muito interessado em fechar um acordo. Ainda não chegámos lá. Não estamos satisfeitos com ele, mas vamos ficar, ou teremos de terminar o trabalho", afirmou durante uma reunião com a sua administração na Casa Branca.
Trump afastou também a possibilidade de um acordo que permita à República Islâmica exercer qualquer controlo sobre o tráfego marítimo no estreito de Ormuz e acrescentou que não tem pressa em chegar a um entendimento com Teerão antes das eleições intercalares em novembro, nas quais estará em causa a maioria republicana no Congresso.
As negociações foram abaladas nos últimos dias por ataques norte-americanos contra pontos de lançamento de mísseis e barcos de plantação de minas no sul do Irão.
Os Estados Unidos alegaram que agiram com "moderação" face ao cessar-fogo em vigor desde 08 de abril, enquanto o Irão condenou estas ações como um sinal de "má-fé e falta de fiabilidade".
Além do estreito de Ormuz e do posterior bloqueio naval dos Estados Unidos ao Irão, a agenda do diálogo inclui o enriquecimento de urânio e produção de mísseis de longo alcance de Teerão, bem como o seu apoio a grupos armados no Médio Oriente, a par do descongelamento de ativos iranianos no estrangeiro e levantamento de sanções internacionais.