Conselho de Paz de Trump para Gaza sem dinheiro
O Conselho de Paz criado pelo Presidente norte-americano para reconstruir Gaza enfrenta problemas jurídicos e não dispõe de qualquer financiamento, apesar de promessas de milhares de milhões de dólares, noticiou hoje o jornal Financial Times.
Criado em janeiro por Donald Trump, que o deverá liderar depois de deixar a Casa Branca (presidência), o conselho não recebeu um único dólar, segundo o diário britânico, que cita quatro fontes próximas do processo.
Em vez de utilizar o fundo administrado pelo Banco Mundial e aprovado pela ONU, o conselho recebeu donativos diretamente numa conta no banco JPMorgan, afirmou o porta-voz da estrutura.
"Não está em vigor nenhum mecanismo de transparência independente", revelou o Financial Times (FT), citado pela agência de notícias France-Presse (AFP).
Trump idealizou o Conselho de Paz para a Faixa de Gaza, onde Israel e o Hamas concluíram em outubro um cessar-fogo apoiado pelos Estados Unidos.
O valor de entrada é de mil milhões de dólares (858,7 milhões de euros, ao câmbio atual) para um lugar permanente.
No entanto, as grandes nações europeias evitam este fórum, que concede amplo espaço a parceiros históricos dos Estados Unidos no Médio Oriente, a aliados ideológicos de Trump e a pequenos países que pretendem captar a sua atenção.
Recentemente, o Presidente indonésio, Prabowo Subianto, excluiu a possibilidade de a Indonésia pagar os mil milhões de dólares exigidos para ser membro permanente do conselho.
O FT referiu que pequenos pagamentos permitiram financiar, nomeadamente, o gabinete do alto representante, o búlgaro Nickolay Mladenov.
Os Emirados Árabes Unidos também concederam 100 milhões de dólares (85,8 milhões de euros) para formar uma nova força policial em Gaza, mas os fundos estão congelados.
Em abril, as Nações Unidas e a União Europeia avaliaram em 71,4 mil milhões de dólares (61,3 mil milhões de euros) as necessidades de reconstrução de Gaza para os próximos 10 anos, num estudo realizado com o Banco Mundial.
Mladenov alertou, na semana passada, para o risco de a situação atual, baseada num cessar-fogo imperfeito num território dividido e devastado pela guerra, se tornar permanente.
A Faixa de Gaza é um território da Palestina situado ao longo da costa oriental do mar Mediterrâneo, com fronteiras com Israel, a leste e a norte, e o Egito, a sudoeste.
Encontra-se separado da Cisjordânia, onde funciona a Autoridade Palestiniana (AP), reconhecida internacionalmente como o governo da Palestina.
A própria Cisjordânia está em grande parte ocupada por Israel desde 1967.
Gaza está sob o controlo do grupo radical Hamas desde 2007, após um conflito sangrento entre os seus militantes e a Fatah, o partido do presidente da AP, Mahmoud Abbas.
Com 365 quilómetros quadrados e 2,3 milhões de habitantes (dados de 2022), o território está praticamente destruído após a ofensiva militar israelita lançada em outubro de 2023, em retaliação por ataques terroristas do Hamas em Israel.
Três organizações não-governamentais (ONG) internacionais alertaram na quinta-feira para uma situação humanitária em Gaza que continua "catastrófica, com discrepâncias significativas entre os compromissos assumidos e a aplicação no terreno".
A guerra causou mais de 72.800 mortos em Gaza, incluindo mais de 900 desde o cessar-fogo, e valeu acusações de genocídio a Israel.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, é alvo de um mandado de detenção do Tribunal Penal Internacional (TPI) desde 2024, por suspeitas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Desde que iniciou o segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, Trump apoiou sempre Israel na guerra contra o Hamas, cujos ataques em 07 de outubro de 2023 causaram 1.200 mortos e 250 reféns, entretanto repatriados.
Trump e Netanyahu aliaram-se em fevereiro para um ataque conjunto contra o Irão, de que resultou mais uma guerra no Médio Oriente com milhares de mortos em vários países e uma crise petrolífera global.