Sarkozy exige "verdade e transparência" e reitera inocência no final do julgamento
O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy exigiu hoje "verdade e transparência" e insistiu que é inocente, na audiência final do julgamento de recurso por alegado financiamento ilegal da campanha presidencial de 2007 pelo regime líbio de Muammar Kadhafi.
"Esta questão do alegado financiamento ilegal da minha campanha começou com mentiras e conspirações. Deve terminar com verdade e transparência", declarou Sarkozy ao tomar pela última vez a palavra no Tribunal de Recurso de Paris, num breve discurso em que criticou duramente a acusação.
Sarkozy apontou duas coisas que o "chocaram e magoaram" neste julgamento, referindo-se às afirmações do Ministério Público de que foi "eleito numas eleições fraudulentas" em 2007 e foi "um Presidente sob influência estrangeira de 2007 a 2012", por ter alegadamente recebido dinheiro de Kadhafi.
"Não traí a confiança dos franceses", afiançou, numa intervenção em que visivelmente se emocionou.
Numa menção clara aos representantes do Ministério Público, recordou "quem se atreveu a dizer" que foi eleito Presidente em eleições manchadas por alegado financiamento líbio, que aquelas eleições presidenciais tiveram a maior participação eleitoral de sempre, com 84%, e que obteve 53% dos votos na segunda volta.
"Houve fraude? (...) Aqueles que votaram em mim foram enganados com dinheiro de Kadhafi que não foi encontrado?", perguntou retoricamente, com um toque de ironia, antes de acrescentar que tais suposições o magoaram.
"E magoam todos aqueles que votaram em mim", sublinhou.
"Fui eleito pelos franceses", prosseguiu, refutando também o argumento do Ministério Público de que o alegado apoio financeiro que recebeu de Kadhafi influenciou a política externa do seu mandato presidencial.
A esse propósito, recordou que foi precisamente ele, juntamente com o então primeiro-ministro britânico, James Cameron, que liderou a coligação internacional que interveio na Líbia em 2011 e provocou a queda do regime de Kadhafi.
"Fazer tais afirmações mina a confiança nas instituições", repetiu, dirigindo-se ao Ministério Público.
Sarkozy reiterou a sua inocência, afirmando não suportar a ideia de que "em França, em 2026, um homem possa ser condenado a sete anos de prisão por crimes que não cometeu", sobretudo quando, como assegurou, "não há qualquer prova".
"Peço que me julguem pelo que fiz, não por quem sou", vincou.
Antes da declaração do ex-chefe de Estado francês, os seus quatro advogados dirigiram-se ao tribunal, concentrando os seus argumentos em questões de substância e também de forma, considerando que gozava de imunidade presidencial quanto aos factos posteriores à sua chegada ao Palácio do Eliseu, em maio de 2007, e que deveria ter sido julgado pelos restantes crimes pelo Tribunal de Justiça da República, que tem jurisdição sobre as responsabilidades dos membros do Governo em exercício de funções.
Um dos advogados tentou realçar a incongruência de um candidato como Sarkozy, que, na corrida eleitoral de 2007, "estava às portas do Eliseu sem qualquer preocupação", se deixar cair "nas mãos de Kadhafi", uma "personagem incontrolável", para estabelecer "um alegado pacto" de corrupção a fim de obter dinheiro de que não necessitava para a sua campanha.
O julgamento terminou hoje, e o veredicto será anunciado a 30 de novembro.
O Ministério Público do Tribunal de Recurso de Paris requereu uma pena de prisão de sete anos para o antigo chefe de Estado, mais dois anos do que a imposta em primeira instância, em 2025, além de uma inibição de cinco anos de candidatura a cargos públicos e uma multa de 300.000 euros.
No primeiro julgamento, foi condenado por associação criminosa, mas não pelos outros três crimes de que era acusado (corrupção passiva, financiamento ilegal de campanha e recetação de desvio de dinheiro público), e a pena de prisão efetiva foi acompanhada de cumprimento provisório, o que o fez passar 20 dias atrás das grades no outono passado, antes de ser libertado sob supervisão judicial.