DNOTICIAS.PT
Crónicas

Até sempre José Luiz

Os meus amigos estavam a casar, a ter filhos e a comprar casa quando arrumei a minha roupa toda e a fotografia da minha mãe dentro de uma mala grande e dois sacos de viagem. O país fervilhava já com a Expo 98, que havia de abrir daí a uns meses, mas eu estava em contra-corrente e a caminho da África do Sul para trabalhar no jornal da comunidade, o Século de Joanesburgo, e ter a minha primeira (e única) experiência como emigrante, num lugar a 10 horas de avião e diferente de tudo o que fora a minha vida até ali, até aos meus 27 anos.

Dentro da bolsa estava a passagem, o passaporte com um visto de trabalho e vários números de telefone. O do primo Emanuel, o do diretor do jornal e o do José Luiz da Silva, que por essa altura era gerente de um hotel, locutor na rádio portuguesa e correspondente do Diário de Notícias. Umas semanas antes tínhamos falado, ele, a mulher, a Maria do Céu, e eu numa mesa do Apolo. Foi a nossa primeira conversa e eu saí do café com a certeza de que podia contar com aquele senhor. Não sabia muito dele a não ser que tinha trazido da guerra do Ultramar uma condecoração por actos de bravura.

E, apesar disso, foi a franqueza que me fez confiar naquele homem, que já tinha dobrado os 50 e que me parecia só um pouco mais novo do que o meu pai. A realidade iria mostrar-me que contar com um sargento comando que enfrentara sozinho um ninho de metralhadoras para defender o pelotão na Guiné ultrapassa todas as medidas de valor quando se aterra numa cidade desconhecida e violenta. E o José Luiz alertou-me para todos os perigos à espreita em Joanesburgo, mas eu lembro-me de ter pensado que, se calhar, estaria a exagerar.

Do céu, conforme o avião baixava, eu avistava apenas, naquele fim de tarde de Abril, vivendas com jardins e os reflexos azuis das piscinas. Só mais tarde, depois de ter passado as linhas da imigração e de ter a impressão que todos os carros circulavam em fora de mão é que fui percebendo as grades nas janelas, os muros altos e os sistemas de alarme. A violência era latente, sabia-se depois pelos jornais, quase sempre os casos mais cruéis, os mais violentos. Os outros eram notas de rodapé nas edições matutinas e vespertinas.

O ambiente era aquele: grades, alarme em casa e contratos com empresas de segurança. E mesmo assim todos os dias as pessoas levantavam-se e iam trabalhar, aos fins de semana faziam um churrasco no jardim com a família e as pessoas mais novas - e eu incluída - iam dançar às discotecas de Rosebank e Sandton, as zonas mais elegantes de Joanesburgo. A comunidade portuguesa organizava festas nos clubes e nas associações e eram muitas. Em Pretória, Nelson Mandela estava no último ano de mandato e a comissão da verdade estava a ultimar o relatório final sobre a violência dos anos do Apartheid.

A SIDA matava milhares ao mês e quase todas as pessoas mais novas com quem me cruzava queriam emigrar para os Estados Unidos, para Austrália, Canadá e Nova Zelândia, onde a vida lhes parecia mais promissora do que ali, onde os índices de violência batiam recordes todos os meses. Eu não estava só em contra-corrente em Portugal, no momento em que o país vivia uma euforia que não se voltou a repetir; também estava em Joanesburgo, onde ninguém parecia perceber os motivos e eram alguns. A minha mãe tinha morrido seis meses depois de eu ter sido dada como sobrevivente de um linfoma. Tinha vindo para refazer-me e aquela cidade parecia longe o suficiente para fazer isso.

Só que Joanesburgo não era uma cidade como as outras, não se podia sair, andar na rua a pé, não se podia ter uma vida como no Funchal ou em Lisboa, mas eu tinha 27 anos e um dia aventurei-me e apanhei um táxi, para ir de um hotel até casa numa viagem que ia da zona elegante a um bairro residencial normal com passagem pelas zonas degradadas de uma Joanesburgo que já não era bem a Paris de África. E foi aí que o motor do táxi começou a deitar fumo. De repente estava sozinha, ao fim da tarde, numa rua perigosa, sem telemóvel e apenas com uns trocos para fazer uma chamada.

E foi ao José Luiz, ao veterano da guerra da Guiné, ao senhor que parecia só um pouco mais novo do que o meu pai que liguei, aflita, com todas as histórias de assaltos que tinha lido a passarem-me pela cabeça. Foi ele que me tirou dali e ainda chamou a empresa de segurança, só para ter a certeza que corria tudo bem. Quando me viu estava tão preocupado, era como se tivesse ido salvar uma filha de um aperto. Acho que nunca lhe agradeci o suficiente, nós sabíamos que tudo aquilo podia ter corrido mal.

Deixei a África do Sul e o anexo que me alugou em Dezembro de 1998, estava quase a chegar o Verão e lembro-me de ver um jacarandá em flor no caminho para o aeroporto. E não voltei a Joanesburgo, mas guardei a amizade e o respeito e, às vezes, falávamos ao telefone por causa das notícias. O José Luiz também era jornalista, mas daqueles à moda antiga, que tinha fontes e contactos, dos que chegava primeiro do que toda a gente, dos que se podia confiar. Para nos contar a história certa ou para nos tirar de uma aflição no meio de uma rua numa Joanesburgo onde se sabia que o que podia correr mal, ia correr mal de certeza.

Até sempre.