O trabalho está feito. Mas onde fica a aprendizagem?
Lembro-me dos meus tempos de infância, lá em casa, em que a minha mãe, professora, estava sempre em cima de mim, para que fizesse os trabalhos de casa e estudasse exaustivamente as diferentes matérias. Não me calhou só a mim, durante gerações, os pais insistiram com os filhos para estudarem, pesquisarem, consultarem livros, escreverem composições e aprenderem a resolver problemas. Hoje, uma criança pode ter uma resposta, uma redação ou a resolução de um exercício em poucos segundos, bastando para isso fazer uma pergunta a uma máquina. Víamos nos filmes o futuro através de um robot e mesmo sabendo que eles estão a chegar (estima-se que cheguem cerca de 100 a Portugal no próximo ano, para fazer trabalhos nas áreas da hotelaria, fabricas e restauração) o futuro chega também através de um ecrã, discretamente instalado no bolso de cada aluno.
Portugal começa a preparar-se para esta realidade. O Conselho Nacional de Educação já recomendou a introdução progressiva da literacia em inteligência artificial desde o primeiro ciclo e a criação de disciplinas ou módulos específicos no ensino secundário. O Governo, por sua vez, colocou em consulta pública orientações para a utilização responsável destas ferramentas nas escolas, cuja versão final está prevista para Janeiro de 2027. Não estamos, portanto, perante uma discussão sobre se a inteligência artificial deve entrar na escola. Essa porta já está aberta. A verdadeira discussão é perceber como a devemos deixar entrar.
Imaginemos uma sala de aula. Um professor pede aos alunos uma composição sobre a importância da liberdade. Há vinte anos, cada aluno teria de organizar ideias, procurar palavras, apagar frases, tirar dúvidas com os pais, recomeçar e, eventualmente, entregar um texto cheio de erros, mas que refletia o seu próprio pensamento. Hoje, alguns poderão simplesmente pedir à inteligência artificial que escreva uma composição brilhante, adequada à idade e com uma conclusão inspiradora. O trabalho está feito. Mas onde ficou a aprendizagem? É precisamente aqui que começa o grande desafio da escola moderna. Se a máquina consegue escrever melhor, calcular mais depressa, resumir livros e explicar conceitos, o que deve a escola continuar a exigir aos seus alunos? Talvez tenha chegado o momento de repensar a própria definição de aprender.
O Conselho Nacional de Educação identifica um risco que merece particular atenção, a possibilidade de os alunos começarem a delegar nas máquinas competências fundamentais que deveriam desenvolver por si próprios. Ler com profundidade, escrever com rigor, argumentar, calcular e construir raciocínios, não são exercícios ultrapassados. São precisamente as ferramentas que nos permitem pensar. Não faria sentido proibir uma tecnologia que já faz parte da sociedade. Seria como tentar ensinar geografia ignorando que existem mapas digitais ou ensinar matemática fingindo que as calculadoras nunca foram inventadas. Mas também seria um erro confundir facilidade com conhecimento. A inteligência artificial pode explicar uma matéria de dez maneiras diferentes até um aluno a compreender. Pode adaptar exercícios às dificuldades individuais, ajudar professores a preparar conteúdos e abrir oportunidades a crianças que, por diferentes razões, precisam de acompanhamento adicional. É uma oportunidade extraordinária, sobretudo se conseguirmos utilizá-la para reduzir desigualdades.
Mas há uma condição, a máquina deve ajudar o aluno a aprender, não aprender no seu lugar. E isso exige uma transformação que vai muito para além da aquisição de computadores ou da instalação de novas aplicações. Exige professores preparados, critérios de avaliação diferentes e, acima de tudo, uma nova relação com o conhecimento. E será que no nosso país temos disponibilidade e conhecimento para formar professores nesse sentido e adaptar os programas curriculares a este novo paradigma?
Talvez uma das disciplinas mais importantes do futuro seja precisamente a literacia em inteligência artificial. Ensinar às crianças como estas ferramentas funcionam, de onde vêm as respostas, porque podem estar erradas, como reconhecer manipulações e, sobretudo, como questionar aquilo que lhes é apresentado como verdade. Mas há uma questão que me parece ainda mais importante. Que espaço vamos reservar para aquilo que não pode ser automatizado?
A curiosidade de uma criança que faz uma pergunta inesperada. A capacidade de discordar. O prazer de descobrir uma resposta sozinho. A criatividade que nasce de uma tentativa falhada. A conversa entre um professor e um aluno que, por vezes, vale mais do que uma aula inteira. Não podemos permitir que a escola se transforme num espaço onde todos sabem perguntar às máquinas, mas poucos sabem conversar uns com os outros. A missão da escola terá forçosamente de continuar a ser a de formar seres humanos capazes de fazer as perguntas certas.