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Madeira

Zita Martins diz que procurar vida no espaço é também perceber de onde viemos

Astrobióloga do Instituto Superior Técnico esteve no MadIT 2026, no Funchal, onde abordou a origem da vida na Terra e a possibilidade de existirem organismos noutros planetas

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Cientista apelou aos jovens para darem continuidade à investigação espacial

A procura de vida fora da Terra é também uma forma de compreender a nossa própria origem e o lugar que ocupamos no Universo. Foi esta a ideia central deixada pela astrobióloga Zita Martins, que esta sexta-feira abriu a sessão 'Histórias com Viagens" do MadIT – Madeira Innovation Talks 2026', no Centro de Congressos da Madeira, no Funchal.

A professora do Instituto Superior Técnico conduziu a plateia numa viagem pelo Sistema Solar e para além dele, explorando as hipóteses científicas sobre a origem da vida no nosso planeta e a possibilidade de existirem formas de vida noutros pontos do Universo.

"A Terra é o único local onde sabemos, sem sombra de dúvida, que existe vida", recordou a investigadora, sublinhando que a ciência ainda não conseguiu determinar definitivamente como surgiu a vida terrestre.

Para ilustrar a dimensão temporal da existência humana, recorreu ao calendário cósmico de Carl Sagan, que representa a história do Universo num único ano. Nesta escala, os seres humanos surgem apenas nos últimos minutos de 31 de Dezembro. "Nós, humanos, estamos aqui há muito pouco tempo", observou.

Uma das hipóteses abordadas aponta para o contributo de cometas e asteroides que atingiram a Terra primitiva, transportando moléculas orgânicas que poderão ter fornecido alguns dos ingredientes fundamentais para o aparecimento da vida.

Zita Martins participou, neste âmbito, na equipa de uma missão espacial japonesa que trouxe à Terra amostras de um asteroide, posteriormente analisadas por cientistas nos respectivos laboratórios, mesmo durante a pandemia. A experiência permitiu demonstrar a importância da cooperação científica e da inovação tecnológica. "A ciência não é linear, mas arranjamos sempre uma maneira", afirmou.

Na procura de sinais de vida extraterrestre, Marte continua a ser um dos principais objectos de investigação. As primeiras experiências realizadas em 1976 não conseguiram identificar vida, mas a cientista considera que a tecnologia disponível na altura era insuficiente e que a investigação poderá ter procurado no local errado.

A radiação solar destrói os possíveis vestígios biológicos à superfície do planeta, pelo que será necessário alcançar profundidades de pelo menos dois metros para aumentar as hipóteses de encontrar sinais de vida. Também a presença de metano na atmosfera marciana permanece por explicar, podendo resultar tanto da actividade de microrganismos como de processos geológicos.

As expectativas da comunidade científica estão igualmente concentradas nas luas geladas de Júpiter e Saturno, nomeadamente Europa e Encélado, que poderão albergar oceanos de água líquida sob as respectivas superfícies geladas.

"Onde há água líquida, há o potencial de existir vida", explicou Zita Martins, que presidiu durante cinco anos a um grupo de trabalho da Agência Espacial Europeia responsável pela escolha de Encélado como destino de uma futura missão de exploração, que deverá contemplar a sua órbita e uma aterragem na superfície.

A missão, contudo, só deverá concretizar-se depois de 2054. "Nessa altura já estarei reformada", comentou, em tom de humor, antes de deixar um apelo às novas gerações: "Precisamos definitivamente dos jovens para continuar esse legado".

A investigadora participa também no desenvolvimento do telescópio espacial europeu Ariel, destinado ao estudo das atmosferas de mais de mil planetas fora do Sistema Solar, contribuindo para aprofundar o conhecimento sobre a diversidade de mundos existentes na nossa galáxia.

A apresentação terminou com imagens dos "Pilares da Criação", uma região de formação de estrelas captada pelo telescópio espacial James Webb, que serviu de mote para uma reflexão sobre a possibilidade de outros sistemas planetários virem a desenvolver formas de vida.

A sessão integrou o programa do MadIT 2026, iniciativa da Região Madeira da Ordem dos Engenheiros, que reúne personalidades ligadas à inovação e à ciência para partilhar experiências e conhecimento. A manhã, subordinada ao tema 'Histórias com Viagens', contou também com Hugo Caires, Anabela Teles e Taveira Pinto, estando a tarde reservada às 'Histórias com Inteligência Artificial'.