A arte de recolher os cacos
O problema, acho eu, foi ter crescido numa família de mulheres talhadas para o drama onde um simples azar assumia a dimensão de uma catástrofe e somava a um todo muito maior, uma espécie de mundo paralelo a que davam o nome de preocupações ou nervos. A designação pouco importava quando, ao domingo à tarde, se juntavam numa conversa surda para encontrar os sinais de que nós, sobretudo as mulheres, sofríamos de uma impossibilidade genética para a felicidade. O dia em que souberam que eu estava doente confirmou esta crença: a de que o destino se cumpria em mim, a mais nova, acabada de chegar de Lisboa, o curso ainda fresco e uma história triste e prestes a tornar-se breve.
Nunca soube ao certo o quanto sofreram e, embora tivessem passado parte da minha adolescência a apontar-me os defeitos, aquelas mulheres gostavam de mim. Talvez fossem demasiado intrometidas, gostavam que lhes contasse mais do que eu queria partilhar e projectavam um futuro que não me servia, mas não me faltaram nos dias, nas noites ou quando a quimioterapia me levou o ânimo. Se eu pensei que podia morrer, elas acreditaram que apenas um milagre me podia livrar dos acontecimentos. E, ainda assim, eu não sei bem o que pensaram. A minha tia Conceição, a tia que me resta, já não sabe quem sou e não me pode falar disso.
Se a notícia da doença as abalou, a certeza de que eu ia viver deixou-as perplexas. O tumulto inicial não se cumpriu e ali estava eu, a ganhar as cores de uma pessoa normal. E foi aqui que o assunto se tornou mais turvo. Ninguém previu que, um ano depois da quimioterapia, estaria a viajar pelos Himalaias, arrebatada pela paisagem e derreada pelo cansaço e sem saber distinguir o que mais me impressionava: se as montanhas, se a miséria das ruas de Katmandu. Eu sabia que, tal como a doença e a morte da minha mãe, aquela viagem haveria de se colar à minha pele, de uma forma estranha e definitiva. E escrevi isso no caderno que me acompanhou naqueles dias, de como a memória me faria regressar ali, às cores dos saris das mulheres e à neve eterna dos picos gelados.
Eu guardei as conversas à noite, nas estalagens onde ficámos, as risadas e as peripécias e, por fim, como quem zela um tesouro, dobrei o papel que um francês - que nunca mais vi na vida - me deu ao pequeno almoço depois de termos estado, os dois, a contar estrelas cadentes na noite anterior, num luar que se abriu depois um forte aguaceiro. Pela frente tinha o caminho de regresso e começava na íngreme escadaria que nos separava do trilho. Acho que olhei uma última vez, acenei e segui atrás do guia e do carregador, atenta ao caminho, às sanguessugas que se agarravam aos braços quando nos distraíamos. A aventura estava a terminar e, com ela, o tempo que eu dera a mim mesma para me adaptar à condição de sobrevivente, essa condição que é alegria e, às vezes, surge como um fardo, pesado e difícil de carregar.
As minhas tias e a minha mãe tinham-me preparado para o drama, a tragédia, o azar e as coisas que correm sempre mal e eu tinha ido dar a outro lugar. Entre a manhã no gabinete do médico no hospital e aquela viagem, a agulha do carril onde a minha vida corria mudara para me apear na estação dos sobreviventes, onde vão dar os que escapam de desgraças, doenças graves, de vícios e essas tormentas das quais é difícil fugir mais ou menos inteiro. E ali estava eu com 24 anos, imbuída de todo o romantismo e cheia de fé de que a vida só me poderia trazer felicidade, sucesso e tudo o me parecia devido. Só que as engrenagens não funcionam assim, não se passa um pano por cima como quem limpa o balcão da cozinha. Eu não sabia, mas nunca se deixa de ser isso, um sobrevivente.
Se estou agradecida, se todos os dias me lembro? Enquanto não for caso de morte, há uma solução, nem que seja recolher os cacos, colar o que é possível e encontrar maneira de seguir entre as ruínas com elegância na esperança de que se tornem um legado, qualquer coisa como a Acrópole em Atenas ou o Coliseu de Roma. Faltam bocados e, mesmo assim, são imponentes e nem o formigueiro de turistas lhes retira a capacidade de nos impressionar. Colar cacos, apreciar ruínas e ver nisso beleza e até um sentido exige um tipo de talento e de disposição particular. E um sobrevivente sabe que não tem escolha se quiser viver sem amargura.