Escola Francisco Franco
O peito enche-se-me de orgulho de, aos 40, beber o meu chá da manhã e ler que a minha escola secundária no Funchal lidera o ranking das escolas na Região. Mais ainda, confesso, por estar à frente do Liceu ou da APEL, para onde iam os privilegiados, onde sempre tive a sensação de que eram postos criteriosamente em turmas construídas pelo maior ou menor “sucesso” de acordo com as avaliações.
A Francisco Franco foi liberdade. Ainda mais vinda de um colégio católico, a contragosto e por necessidade de ser integrada no sistema escolar depois de outro tumulto paternal difícil.
Liberdade para nos expressarmos na roupa, na música, nas convicções políticas, para nos descobrirmos no Barbusano, no Clube de Fotografia, onde fosse. Estranheza de conhecer outros diferentes e de ficar mais sensibilizada para a diferença, as limitações e virtudes a ela associadas.
Por agruras da vida, um par de meses depois de ter começado no 10.º ano, houve uma tragédia pessoal avassaladora. Voltei entusiasmada para a escola quatro dias depois, fim de semana incluído. Nem quis usufruir dos cinco estonteantes dias de luto com falta justificada para as aulas.
Para a maioria, ainda estava atordoada e sem plena ciência do que se passara. Voltar à rotina não foi só estruturante, mas necessário.
A Prof.ª Urânia, de História, que com a maior generosidade me gravou um CD de Ney Matogrosso que ela achava que me podia dar respostas para a confusão e tristeza que estava a sentir à época; a Prof.ª Teresa Monteiro, directora de turma, que se manteve muito atenta e disponível para tudo (em articulação com a minha mãe); a Prof.ª de Filosofia e Psicologia Paula (será?), que me entusiasmou muito para a filosofia, fez-nos debater questões polémicas na altura (quem diria, 23 anos volvidos) – o aborto, a pena de morte, a eutanásia. A Prof.ª Humberta, sempre discreta e bem-disposta, que me deu a conhecer o alemão e cujos olhos azuis bonitos fizeram brilhar os meus com a possibilidade de participar num intercâmbio na Alemanha em 2003.
Penetrei-me, deliciada e encantada, em aulas de outros agrupamentos, professores e anos: as aulas agitadas de Oficinas de Arte da Prof.ª Teresa e da Prof.ª Mafalda, Teresa, Graça, com o frenetismo de música escolhida pelos alunos e de vaivém de materiais, cores e muita conversa e convívio.
E, last but certainly not the least, a Prof.ª Regina, que declamava. Pessoa com sangue na guelra e lágrima no olho, que me fez admirar ainda mais a poesia e rir e chorar com ela. Não foi à toa que foi a nossa madrinha na bênção das capas de 2003-2004.
Espero que nos encontremos por aí. Senão, que tenham consciência de que o ranking emocional e amnésico das escolas não está aí expresso, mas que certamente faz a diferença para a motivação e alegria de cada um dos vossos alunos.
Saibam também que, ao contrário do que alguma vez pensei, hoje sou também professora de Psicologia de adolescentes, e que tudo o que aprendi convosco, bem além do currículo, ainda hoje coexiste em mim.
A maioria tinha razão; só caí em mim quatro anos depois. E essa queda foi amparada por todo o respeito, dedicação e sensibilidade que tive da escola.
Bárbara Loja