Mala com 23 quilos de cocaína chegou à Madeira por engano
Falha expôs rede internacional de tráfico de droga com ligações ao Cartel de Cali
Há 27 anos, o DIÁRIO revelava como uma falha numa operação internacional de tráfico de droga levou uma mala carregada de cocaína até ao Aeroporto do Funchal.
Na altura, três funcionários da TAP foram "apanhados" envolvidos no esquema.
Nem sempre uma mala chega ao destino pretendido. E, neste caso, o erro acabou por denunciar uma operação internacional de tráfico de droga. A 29 de Outubro de 1999, o DIÁRIO revelava os contornos de uma investigação da Polícia Judiciária (PJ) que permitiu esclarecer o mistério de uma bagagem com 23 quilos de "cocaína de elevada pureza", que tinha sido apreendida em Dezembro do ano anterior no Aeroporto do Funchal.
Com o título "Mala com cocaína veio ter à Madeira por engano", a notícia explicava que a Região nunca tinha sido o destino previsto para o carregamento. A chegada do estupefaciente ao Funchal tinha resultado de uma falha dos próprios traficantes, entre os quais se encontravam três funcionários da TAP, ligados a uma estrutura do Cartel de Cali, da Colômbia, sediada no Sul de Espanha.
A sua vinda para a Madeira foi um engano que não pôde ser rectificado a tempo
O DIÁRIO também dava conta que o esquema recorria à duplicação de etiquetas de bagagem para introduzir cocaína na Europa, através do Aeroporto de Lisboa. O método passava por copiar as etiquetas de malas pertencentes a passageiros que faziam escala na capital portuguesa, colocando-as depois nas bagagens que transportavam a droga. Durante o transbordo para outros voos, os chamados "correios" encarregavam-se de desviar os carregamentos, sem levantar suspeitas.
Daquela vez, porém, alguma coisa correu mal. A etiqueta utilizada correspondia à bagagem de um passageiro com destino à Madeira e a mala com cocaína acabou assim por seguir viagem até ao Funchal. "Por razões desconhecidas, e alheias aos 'correios' agora detidos, a mala contendo a droga não foi 'desviada' a tempo", podia ler-se no artigo.
E à chegada, como foi natural, ninguém reclamou a bagagem. O abandono, aliado à proveniência de um dos denominados "países de risco", despertou a atenção dos serviços alfandegários, que decidiram abrir a mala. No interior estavam então os 23 quilos de cocaína que desencadeariam uma investigação de dimensão internacional.
Os três funcionários da TAP, entre os quais um oficial de placa no Aeroporto de Caracas, um oficial de tráfego e um operador de rampa, tinham sido detidos em Agosto de 1999, no âmbito da operação policial denominada "Aterragem Forçada".
A investigação, desenvolvida em colaboração com as autoridades espanholas e venezuelanas, resultou em 14 detenções em três países. Cinco suspeitos foram detidos na Europa, incluindo os três trabalhadores da transportadora aérea, enquanto outros nove foram capturados em Caracas, na Venezuela.
Dez mil doses de heroína destruídas no Funchal
Na mesma página, o DIÁRIO dava destaque a outra operação relacionada com o combate ao tráfico de droga. Sob o título "Judiciária queimou 10 mil doses de heroína", era noticoado a destruição de 767 gramas de heroína pura, no forno crematório do Matadouro do Funchal.
A operação, realizada na tarde de 28 de Outubro de 1999, foi acompanhada por elementos da PJ, um magistrado e um técnico laboratorial. Tratava-se da maior quantidade de droga até então destruída por incineração na Madeira, incluindo um lote correspondente à maior apreensão de heroína realizada na Região até àquela data.
Segundo a notícia, o estupefaciente permitiria produzir cerca de 10 mil doses individuais, que poderiam render aos traficantes "mais de quarenta mil contos" no mercado ilegal.
Habitualmente, a destruição da droga apreendida era realizada no continente, mas, como os testes laboratoriais já tinham sido efectuados e a substância regressara à Madeira, as autoridades optaram por proceder à sua incineração na Região, evitando uma nova deslocação a Lisboa.