Investigador madeirense cria "avatar" da medula óssea para testar tratamentos contra a leucemia
Hugo Caires apresentou no MadIT 2026 o projecto desenvolvido pela startup MyCancer, inspirado na história de um jovem doente que acompanhou durante a sua investigação
Tecnologia permite reproduzir em laboratório o ambiente da medula óssea e testar diferentes terapias antes de serem administradas aos pacientes
"Nunca soube o nome dele. Mas nunca o esqueci". Foi a partir da história de um rapaz com leucemia, cujas amostras de sangue acompanhou durante dois anos, que o investigador madeirense Hugo Caires encontrou a motivação para desenvolver uma tecnologia que poderá ajudar a antecipar a resposta dos doentes aos tratamentos contra o cancro.
Fundador da startup madeirense MyCancer, o investigador emocionou esta sexta-feira a plateia do MadIT – Madeira Innovation Talks 2026, no Centro de Congressos da Madeira, no Funchal, ao partilhar o percurso que o levou a criar um "avatar" da medula óssea humana, capaz de reproduzir em laboratório o ambiente onde se desenvolve a leucemia e testar diferentes terapias antes de estas chegarem ao doente.
A ideia nasceu quando trabalhava num laboratório no Porto e recebeu a primeira amostra de sangue de um jovem com leucemia. Nos dois anos seguintes, chegaram-lhe mais três amostras, correspondentes a recaídas da doença. Até que deixaram de chegar.
A ausência de novas amostras deixou uma pergunta que viria a marcar o seu percurso científico: porque falhou o tratamento, apesar de terem sido seguidas as orientações médicas?
"A história dele mudou a minha. Deu-me um propósito", confessou Hugo Caires, explicando que a experiência o levou a questionar os limites das ferramentas actualmente disponíveis para orientar os tratamentos oncológicos.
Na sua intervenção, o investigador chamou a atenção para o facto de as terapias serem frequentemente definidas com base em orientações clínicas e resultados médios obtidos em milhares de doentes, sem que exista uma ferramenta capaz de antecipar, com precisão, a resposta individual de cada paciente.
A solução que propõe passa pela criação de um modelo tridimensional da medula óssea, um pequeno dispositivo transparente que reproduz, em laboratório, o ambiente biológico onde a leucemia se desenvolve.
O equipamento integra biomateriais que imitam a estrutura óssea, diferentes tipos de células e canais microscópicos que simulam a circulação sanguínea. Desta forma, permite recriar algumas das condições do organismo humano e testar, em simultâneo, várias terapias utilizando células do próprio doente.
A biologia foi bater à porta da engenharia. E a engenharia respondeu com isto" Hugo Caires
O desenvolvimento da tecnologia foi marcado por sucessivas dificuldades, com protocolos experimentais repetidos mais de 20 vezes e experiências em que as células morriam sem que a equipa conseguisse identificar a causa.
O avanço surgiu quando os investigadores observaram, através do microscópio, as células a organizarem-se em redes vasculares. No modelo desenvolvido, conseguiram observar em tempo real um comportamento até então identificado em amostras de doentes: a capacidade da leucemia para reorganizar os vasos sanguíneos e escapar aos efeitos da quimioterapia.
Fala-se de inteligência artificial; aqui temos inteligência natural" Hugo Caires
Depois de 19 anos fora da Madeira, o investigador decidiu regressar à Região, já pai, e abandonar a carreira académica para apostar na criação da MyCancer. A equipa alcançou entretanto o primeiro lugar na respectiva categoria num programa europeu de apoio a startups inovadoras, conquistando ainda dois prémios.
Segundo o investigador, foi a primeira vez, em dez anos, que uma equipa proveniente de uma região periférica conseguiu alcançar aquele resultado.
Hugo Caires agradeceu também à Secretaria Regional de Saúde, ao SESARAM e à Estrutura de Missão do novo hospital pelo apoio prestado à criação da empresa na Madeira.
No final da apresentação, regressou à história do jovem que esteve na origem do projecto, reconhecendo que não sabe se a tecnologia agora em desenvolvimento teria conseguido alterar o desfecho daquele caso.
"Não sei se a tecnologia que estamos a desenvolver o teria ajudado. Sendo honesto, não sei", admitiu. Mas deixou claro que a memória daquele doente continua a orientar o seu trabalho: "Não posso voltar atrás no tempo, mas posso fazer a minha parte e procurar respostas. Aqui, na Madeira".
A intervenção integrou a manhã do MadIT 2026, iniciativa da Região Madeira da Ordem dos Engenheiros, dedicada às 'Histórias com Viagens', que juntou investigadores e profissionais de diferentes áreas para partilhar experiências e projectos de inovação.