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Onde anda a empatia Cristã?

A crise da habitação que assola vários países europeus tem vindo a revelar muito mais do que um problema económico ou político.

Tem exposto uma preocupante erosão da empatia social, visível sobretudo na forma como muitos comentadores nas redes sociais reagem às manifestações e aos apelos de quem vive a angústia de não conseguir pagar uma renda ou encontrar uma casa para viver.

Perante um problema que afeta a dignidade humana, seria expectável encontrar solidariedade. No entanto, o que frequentemente emerge é desvalorização, julgamento e até hostilidade em relação aos mais vulneráveis. Perante esta realidade, impõe-se uma questão: onde anda a empatia cristã?

O cristianismo assenta numa mensagem clara de compaixão pelos mais pobres, excluídos e fragilizados. A preocupação com os mais necessitados surge como um dos pilares centrais da fé cristã. Quando Jesus afirma que tudo o que se faz ao mais pequeno dos irmãos é feito a Ele próprio, estabelece um princípio moral que continua a desafiar os crentes de todas as épocas.

Por isso, torna-se difícil compreender a crescente insensibilidade de muitos que, afirmando-se cristãos, reagem aos problemas da habitação com desprezo ou indiferença. Em vez de procurarem compreender as dificuldades de famílias que trabalham, pagam impostos e, ainda assim, não conseguem aceder a uma habitação digna, optam por desviar o debate para questões secundárias ou para ataques ideológicos. Mais grave ainda é observar pessoas que vivem elas próprias em situações de precariedade habitacional a criticarem iniciativas de solidariedade e mobilização social destinadas a defender os seus interesses.

Este fenómeno não surge do acaso. A pobreza e a exclusão social deixam marcas profundas na autoestima das pessoas. Quem sente que falhou, apesar do seu esforço, procura frequentemente compensação noutras formas de reconhecimento.

É precisamente aqui que os movimentos populistas têm encontrado terreno fértil.

Actualmente, extrema-direita actual e as igrejas a ela associadas assumem, assim, um discurso de uma superioridade moral, numa pregação dirigida ao pobre ou a pessoa com origem humilde, que se vê compensada pela falta de bens materiais ou de cultura. Daí a utilização do termo homem de bem, imbuído de bons hábitos e costumes, com o propósito de dar a um determinado grupo na sociedade um lugar de uma suposta superioridade moral.

Ao longo da história, a associação entre poder político e legitimidade religiosa revelou-se uma estratégia eficaz para consolidar apoios. Não foi em vão que, já em Democracia, o governo de João Jardim se associou à Igreja Católica. Numa região de gente maioritariamente pobre e católica, dar-lhe um lugar de pertencimento moral, garantia a adesão do povo ao partido do governo.

A verdadeira empatia cristã não consiste em proclamar valores, mas em praticá-los. Num tempo em que milhares de pessoas enfrentam a insegurança de não terem uma casa onde viver, o testemunho cristão deveria traduzir-se na defesa da dignidade humana, na solidariedade activa e na recusa de discursos que culpabilizam os mais frágeis. Se a fé não nos torna mais sensíveis à dor dos outros, então talvez seja legítimo perguntar não apenas onde anda a empatia cristã, mas também o que resta do cristianismo quando a compaixão deixa de ocupar o seu lugar central.