Estará o Muro da Esperança no Funchal com cada vez mais participantes?
A Praça do Município, no Funchal, voltou a acolher o Muro da Esperança. Uma iniciativa integrada na Festa da Flor e que acontece desde 1979. A construção do Muro decorreu neste sábado e contou com a presença de Eduardo Jesus. Na ocasião, o secretário regional do Turismo e Cultura destacou o crescimento e a importância simbólica da cerimónia do Muro da Esperança, que, neste ano, reuniu mais de 400 crianças de várias escolas e instituições numa manifestação colectiva de paz. O governante sublinhou, ainda, a crescente adesão ao longo dos anos, tendo considerado o evento uma forte mensagem de esperança, especialmente pelo envolvimento infantil.
Noutra parte da Praça do Município, um acompanhante de uma criança participante, foi mais peremptório: “Isto está cada vez mais forte e com mais crianças”.
Terão razão o governante e o participante na evento, quando afirmam que a adesão de crianças é cada vez maior ao longo dos anos ou isso reflecte uma percepção que não encontra fundamento nos factos históricos?
Para verificar a veracidade das afirmações recorremos a notícias publicadas ao longo de várias décadas na imprensa regional, com destaque ao arquivo do DIÁRIO, nas quais são referidos, de forma explícita, números de crianças ou participantes no Muro da Esperança. O objectivo não foi reconstituir uma série completa ano a ano, mas sim identificar valores suficientemente consistentes que permitam perceber a evolução global da participação.
Uma das referências mais antigas encontradas remonta a 1987, quando o DIÁRIO dava conta da participação de cerca de 2.000 crianças na construção do Muro. Trata-se de um valor elevado, que evidencia uma forte mobilização escolar e comunitária naquela época.
Avançando para períodos mais recentes, encontramos vários registos com números significativamente inferiores. Em 2012, são referidas mais de 1.200 crianças. Em 2014 e 2015, os valores situam-se igualmente na ordem das 1.200 a 1.250 participantes. Em 2017, há referência a cerca de 1.250 participantes, embora nem todos sejam necessariamente crianças, o que obriga a introduzir alguma cautela na comparação directa.
Nos anos imediatamente anteriores à pandemia, como 2018 e 2019, as notícias apontam para mais de mil crianças, mantendo-se, ainda assim, abaixo dos valores registados na década de 1980. Já no período pós-pandemia, os números revelam uma nova realidade. Em 2022 e 2023, participaram cerca de 800 crianças. Em 2024, o número desce para cerca de 700. Em 2025, as notícias indicam mais de 300 crianças e, neste ano, cerca de 400.
Estes dados permitem retirar algumas conclusões. Desde logo, não existe uma tendência de crescimento contínuo da participação. Pelo contrário, verifica-se que os valores mais elevados pertencem a períodos mais antigos, em especial às décadas de 1980 e 1990, sendo claramente superiores aos actuais.
Por outro lado, mesmo olhando apenas para os últimos anos, não se detecta uma evolução consistente no sentido do aumento. Há oscilações relevantes, com momentos de maior participação seguidos de descidas, o que contraria a ideia de crescimento sustentado.
Importa ainda ter em conta que factores como a organização do evento, limitações logísticas, critérios de participação ou mesmo contextos excepcionais, como a pandemia, podem influenciar os números. A estes acresce um elemento de natureza demográfica. A diminuição do número de nascimentos nas últimas décadas, na Madeira e no País, que reduz o universo potencial de crianças participantes. Ainda que esta relação não permita, por si só, explicar a evolução registada, constitui um factor adicional a considerar na leitura dos dados.
Pelo contrário, a análise histórica aponta para uma diminuição face aos valores mais elevados do passado e para uma evolução recente marcada por variações, e não por crescimento contínuo.
Pelo exposto, as afirmações que apontam para um aumento progressivo e consistente da participação de crianças no Muro da Esperança não encontram sustentação nos dados disponíveis, sendo, por isso, avaliadas como falsas.