O definhar da esperança
Há dias lia um escrito de alguém, cujo nome não me recordo, a falar sobre o que entendia serem os partidos políticos nos dias que correm. Dizia ele que mais do que um conjunto de pessoas com um ideário comum, hoje os partidos tinham-se transformado em agrupamentos de pessoas com interesses semelhantes.
Parecendo pouco, esta mudança explica muito do que vejo estar a acontecer na Europa, no nosso país e, por maioria de razão, igualmente na nossa região. Mais ainda aqui, talvez, em virtude da falta de alternância no governo, um absurdo democrático que, se não for único no mundo, é no mínimo uma raridade.
Foi eventualmente para validar esta lógica que fui seguindo o último congresso regional do PSD.
Não tenho filiação partidária, nunca tive, aliás, mas isso não significa que não tente acompanhar a vida dos partidos e o que defendem, na busca permanente do tal ideário em vias de extinção com que me possa identificar mais. Isto porque não consigo votar em ninguém por interesse…
Não posso deixar de registar a minha tristeza, mais do que estranheza. Para além do estafado e cansativo discurso contra Cuba e o retângulo, que parece justificar tudo o que não corre bem, e dos temas do momento – habitação e mobilidade aérea – o grande projeto que parece ter surgido é o requentado aumento do Porto do Funchal.
A ideia é efetivamente péssima sob vários pontos de vista, não tem qualquer racional financeiro, vem de quem há muito fala sobre os problemas da monocultura económica, vai agravar um conjunto de problemas que a cidade do Funchal já sente, aumentará a tensão já existente entre a população e a indústria turística. E etecetera, que não me dão caracteres para continuar a apresentar razões para este enorme e completo absurdo.
Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso percebe estas questões; pode é não querer falar delas, porque mesmo que inconscientemente sabe que isto faz parte do verdadeiro modelo de desenvolvimento regional, imutável há décadas, que aqui já cataloguei como o PCEC: - Processo de Cimentização Em Curso. Parece-me adequado, escrevendo eu estas linhas no dia 25 de Abril…
Sendo esta opção um disparate tão grande, só consigo mesmo justificá-la por esta tal junção de interesses que sempre tem servido de bússola à nossa governação.
Mais cimento, mais cinzento; é isso que interessa para manter quem manda contente, um pleno emprego no curto prazo (não esquecer que o sobredimensionado novo hospital em breve acaba e temos de conseguir empregar algures este número muito significativo de pessoas com escolaridade baixa) e o discurso do crescimento, por mais artificial que seja.
Num momento em que tanto se fala na geração mais qualificada de sempre, nas mudanças sentidas e pressentidas em relação aos mais novos, no inverno demográfico, num mundo cada vez mais pequeno e, consequentemente, mais desafiante, não ouvir um rasgo, uma ideia inovadora ou um projeto diferenciador para o nosso futuro coletivo deixou-me, repito, mesmo muito triste.
Quando falei nisto a um Amigo, perguntou-me se eu ainda acreditava no Pai Natal. Não sei se será isso ou eventualmente ingenuidade em excesso mas olhem, fica aqui este escrito para memória futura, na certeza que não me livrarei de críticas, que só não são mais porque já ninguém lê o que escrevo. Ainda há esperança, portanto…