"Carregamos a guerra às costas" dizem jovens em manifestação em Berlim
"Carregamos a guerra às costas", lamenta Hia, numa manifestação em Berlim onde cerca de cinco mil pessoas, segundo a polícia, protestam contra a guerra, o custo de vida e a falta de perspetivas para o futuro.
Ao lado da amiga Marina, a jovem questiona por que razão a sua geração tem de suportar as consequências de conflitos e decisões políticas que não tomou.
"Porque é que temos de carregar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia? E porque temos de usar armas alemãs?", pergunta, mesmo em frente às Portas de Brandemburgo.
As duas participam na mobilização da chamada Geração Z, que decorre hoje em mais de 30 cidades alemãs. Os organizadores do movimento GenZ regelt! (A Geração Z trata disso!) esperam mais de 170 mil participantes em todo o país, incluindo em Berlim, Frankfurt e Colónia.
A contestação junta preocupações com a situação económica, a falta de habitação acessível, os cortes nos serviços públicos e o aumento da despesa militar. Os protestos inspiram-se em mobilizações de jovens noutros países europeus, nomeadamente em França e Itália.
"A nossa geração está tramada", aponta Marina, natural de Berlim. A jovem trabalha numa seguradora, enquanto Hia está na área da engenharia civil. Ambas têm formação académica e empregos qualificados, mas dizem não ganhar o suficiente para arrendar uma casa por conta própria e continuam a depender dos pais.
"Estamos na Alemanha. Este não deveria ser um dos melhores países do mundo para viver?", questiona Marina.
A conversa passa também pela posição alemã em relação a Israel. Marina critica o apoio de Berlim e considera que o país deveria olhar com mais atenção para o que está a acontecer em Gaza, que descreve como um genocídio.
No meio da multidão, ouvem-se palavras de ordem contra a guerra e a desigualdade. Um folheto distribuído por quem ali passa reúne 25 frases para os manifestantes repetirem, entre elas "Ohne Lösung -- Revolution" (Sem solução, revolução), "Kein Mensch, kein Cent der Bundeswehr" (Nem pessoas nem um cêntimo para as Forças Armadas) e "Frieden schaffen -- ohne Waffen" (Construir a paz sem armas).
No meio de algumas caras pintadas, mas nenhuma tapada, há cartazes com mensagens como "Tax the Rich" (Taxem os ricos), "Stop wars", numa referência visual à saga Star Wars, e "A única minoria que destrói a nossa sociedade são os ricos".
Lee, que se mudou recentemente para Berlim e está perto dos 30 anos, assume ter vindo para se manifestar contra o crescimento da extrema-direita.
"Temos de nos unir contra isso", sustenta.
Valle, outro participante, aponta o que considera ser uma inversão de prioridades do Governo alemão.
"O Governo está a gastar dinheiro nas forças armadas e na guerra, em vez de investir nas escolas e no sistema social", sustenta.
"Estamos zangados. Já não podemos viver assim. Temos de fazer alguma coisa --- e, sobretudo, não ir para a guerra por eles", acrescenta.
A oposição ao reforço militar e a um novo modelo de serviço voluntário nas Forças Armadas está entre as reivindicações do movimento. Os participantes receiam que a medida possa abrir caminho ao regresso do serviço militar obrigatório.
Do palco, Henning pede aos participantes que mantenham o protesto pacífico. A organização, explica, quer que todos possam passar o dia juntos sem confrontos e sem perder de vista o motivo da mobilização.
"A polícia não é o nosso foco. Estamos aqui porque todos os partidos estão a falhar", diz, apelando a que não haja agressões contra outros manifestantes, agentes policiais ou qualquer outra pessoa.
A organização propõe uma forma de evitar que eventuais provocações acabem em confrontos, sentarem-se todos no chão. O gesto é ensaiado durante a manifestação. Henning sugere ainda que, se houver tensão, os participantes respondam com cânticos, incluindo "Bella ciao".
O movimento GenZ regelt! afirma rejeitar a violência, o racismo e os discursos de ódio, bem como a presença de grupos extremistas e de símbolos anticonstitucionais. As autoridades alemãs mobilizaram milhares de agentes para acompanhar as manifestações, que decorrem no dia de Halloween, e prevenir possíveis distúrbios.
Na zona comercial do Kurfürstendamm, algumas lojas têm as montras tapadas com placas de madeira, numa medida preventiva. Apesar das preocupações de segurança, as autoridades dizem não ter identificado indícios concretos de planos de violência.