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Madeira

Associação pede gabinete para trabalhar acessibilidade e derrubar barreiras

Funchal não passou no teste. "Falta as entidades governamentais nos ouvirem", diz presidente da ADNME-RAM

As jornadas decorreram esta manhã. Bruno Sousa foi um dos oradores.
As jornadas decorreram esta manhã. Bruno Sousa foi um dos oradores., Foto DR

É preciso um gabinete para pôr fim às barreiras arquitectónicas e apoiar as pessoas com mobilidade reduzida, pede a Associação de Doenças Neuro-Músculo-Esqueléticas da RAM (ADNME-RAM), que esta manhã promoveu a terceira edição das Jornadas Saúde, Acessibilidade e Qualidade de Vida, na Sala da Assembleia Municipal do Funchal. Sara Freitas, a presidente da instituição particular de solidariedade social, reivindica ainda a criação de uma casa-de-banho acessível no Funchal. Pela mesma necessidade de derrubar obstáculos enveredou Tiago Camacho, empresário que ganha a vida a facilitar o acesso de quem, mesmo com pouca mobilidade, não desiste de vir de férias à Madeira.

A presidente da ADNME-RAM revela que a Associação esteve cerca de dois meses a testar a cidade no que diz respeito às barreiras e esta não passou no teste. Conta que escolheram um percurso simples, que foi testado com a ajuda de uma pessoa que sofreu um AVC, com metade do corpo imobilizado, que se deslocou em cadeira de rodas. O objectivo era perceber se conseguia fazer coisas básicas, como ir a uma casa-de-banho pública. “Não consegue”, lamentou. “A única casa-de-banho pública que existe é ali ao pé do Banco de Portugal e tem uns 30 degraus”.

Também ir a um banco não é para todos os cadeirantes. Muitas agências bancárias têm degraus. “Nós andámos a medir a altura dos degraus. Algumas cadeiras eléctricas conseguem, mas a manual é impossível”.

Das tarefas que tinha a cumprir, conseguiu tomar café, bastou encostar-se a uma das mesas numa esplanada.

“Isto não é qualidade de vida e nós queremos dar qualidade de vida aos portadores das doenças neuro-músculo-esqueléticas”.

Sara Freitas lembra que cada vez mais as pessoas vivem sós. “Se vive só e tem um AVC, está limitada à sua casa, do seu quarto não irá sair e isso não é vida para ninguém, não dá dignidade à pessoa”. E pede por isso diálogo, soluções.

“As câmaras municipais, as entidades governamentais, todas as instituições deviam comunicar connosco, dialogar connosco”, apela, crente de que através de uma parceria muito pode ser feito. “Nós temos pessoas que são arquitectos, engenheiros nos nossos órgãos sociais, outros são terapeutas, estudam toda esta problemática das barreiras arquitectónicas e sabem muito bem aconselhar”. Sara Freitas explica que conseguem ver, medir o nível de força, ver se uma rampa é muito inclinada, se é necessário um corrimão ou um chão anti-derrapante.

“Nós até sugerimos que fosse criado um gabinete ou um local, um ponto de encontro para debatermos isto. Porque às vezes uma barreira pode ser um tapete no chão que está a dificultar uma cadeira de rodas ou uma pessoa que se desloca com uma canadiana, com duas”.

Segundo a presidente, no geral são coisas muito simples de resolver. “São soluções baratas. Tem a ver com a boa-vontade das instituições. Tem a ver com o querer fazer, com o querer melhorar”. E diz que falta interligação. “Falta as entidades governamentais nos ouvirem. Porque nós temos coisas bonitas para dizer. Não estamos aqui para criticar nada, nós só estamos aqui para dar soluções”.

A casa-de-banho no Funchal, poderia ser criada com recurso a um mini-contentor, sugere.

Tiago Camacho sabe do que fala, quando diz que é preciso tornar as cidades mais acessíveis às pessoas com mobilidade reduzida. O empresário pede aos que decidem que “vejam com olhos de ver”. “Não é só estar sentado e fazer um plano, um projecto e as coisas funcionam”. E sugere que os decisores planeiem a cidade para os casos mais difíceis de pouca mobilidade, garantindo assim chegar a todos.

O fundador da empresa Madeira Acessível by Wheelchair diz que falha o rebaixamento de passeios, os elevadores muitas vezes não funcionam e as casas-de-banho adaptadas que existem, estão fechadas, por vezes nem sabem da chave, outras não funcionam, ou estão longe dos centros.

“Casas-de-banho acessíveis é extremamente complicado. Foi preciso criar uma lista à volta da ilha das que temos”, contou, explicando que quando leva os clientes em passeio é preciso gerir essa questão, até mesmo no Funchal, onde acabam na de um restaurante.

E enumerou as que existem pela ilha, tão poucas que identifica-as de cabeça. Algumas são de restaurantes e cafés.

O empresário lamenta que não sejam ouvidos. “As câmaras nunca nos chamam para perguntar se é acessível ou não. Nós não fazemos parte dessas questões”. E conta que há pouco tempo apresentou uma queixa contra a Câmara de Santana por causa do Miradouro do Guindaste, que foi recuperado e não incluiu uma casa-de-banho acessível.

“Houve avanços? Mudaram as coisas? Sim. Mas falta o rebaixamento de passeios no Funchal, existe um problema grave nisso, principalmente quando temos pessoas que vêm de navio, pessoas idosas”.

 Segundo o empresário, 90% das pessoas vêm à Madeira nos navios têm para cima de 60 anos. “A cidade tinha de ser mais acessível”.

Sobre se há queixas, se reclamam, responde que a vida continua, mas que os repetentes reparam que não há diferença.

Tiago Camacho acredita que é preciso repensar a Madeira para a pouca mobilidade. “Dependemos muitas vezes dos elevadores, dependemos muitas vezes de estar a ligar e perguntar se está a funcionar. Depois a solução é só aquilo”, lamentou. “Falta muito essa questão, sentar, fazer um passeiozinho, sentar numa cadeirinha de rodas e tentar perceber o bom e o mau das coisas. É isso que falta mudar”, acredita.

Além da mesa da acessibilidade, o programa das Jornadas Saúde, Acessibilidade e Qualidade de Vida dedicaram espaço à saúde e ao social. Na vertente da saúde, o director do Serviço de Nutrição do Serviço Regional de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM) destacou a importância de ler os rótulos para fazer escolhas acertadas. A sessão de literacia alimentar focou-se na importância de as pessoas estarem informadas e escolherem conscientemente.

Bruno Sousa abordou os perigos das modas, como sejam os produtos sem glúten, e as dietas de mais proteína, que podem resultar, por engano, em desequilíbrios e em consumos de produtos menos saudáveis. “As pessoas pensam por vezes que estão a fazer as escolhas alimentares mais adequadas e não estão", alertou. “Os produtos processados e ultra-processados são cada vez mais frequentes no nosso mercado e a população tem de estar informada”, sublinhou, destacando a importância da formação nesta área. A informação está disponível, a legislação podia melhorar, mas existe. É preciso saber interpretar. Ser crítico, defendeu.

O Dia Internacional da Dieta Mediterrânica será assinalado este ano pela primeira vez, o SESARAM vai juntar-se à efeméride a 16 de Novembro.