Quantidade e adesão demonstram que festa “é do que os madeirenses gostam”?
A Semana Gastronómica de Machico decorre até ao próximo domingo, dia 9 de Agosto. É um dos muitos eventos que a Madeira acolhe por estes dias e que atraem inúmeras pessoas. Muitos têm sido, igualmente, os comentários deixados por madeirenses nas notícias sobre a Semana Gastronómica, uns com ela concordando e elogiando, outros criticando o evento e os seus frequentadores.
Entre os muitos comentários, houve quem tenha dito que é “arraial atrás de arraial” e que isso “já cansa”. Outro, depois das críticas concretas ao certame em Machico, disse que “é do que os madeirenses gostam”. Mas a quantidade de festas, aqui entendidas no sentido alargado, que inclui as religiosas e profanas, e a adesão dos madeirenses comprovam que a Madeira acolhe arraial atrás de arraial e que é do que os seus habitantes gostam?
Para verificar as afirmações fizemos um levantamento das festas realizadas na Madeira e no Porto Santo durante um ano completo. Escolhemos 2025 e recorremos a notícias da comunicação social regional e a informação publicada por entidades oficiais.
O conceito de festa foi usado num sentido alargado. Não procurámos apenas eventos que têm oficialmente a designação de arraial. Incluímos festas religiosas com componente profana, festas de freguesia, semanas gastronómicas, festas de produtos regionais e outros certames populares com características habitualmente associadas aos arraiais.
O levantamento permitiu identificar pelo menos 75 realizações em 2025. Não se trata de um número exaustivo. Muitas festas paroquiais de pequena dimensão têm divulgação essencialmente local e muitas vezes não deixam registo facilmente acessível na Internet.
Há festas praticamente todo o ano. Em Janeiro realizam-se Santo Amaro, São Sebastião, Santo Antão e a Mostra da Poncha e do Mel. Seguem-se, entre outras, a Festa dos Compadres, Festa do Limão, Festa da Flor, Festa da Cebola e Festas da Sé. No Outono continuam as festas do Pêro e da Castanha e, em Dezembro, o Arraial de Santa Luzia.
É, no entanto, no Verão que a expressão “arraial atrás de arraial” mais se aproxima do que efectivamente acontece. Entre finais de Junho e o fim de Agosto, as festas sucedem-se e, frequentemente, sobrepõem-se. Só a 22 de Junho encontrámos referências a festas do Santíssimo Sacramento em oito paróquias: Santo António, São Martinho, Santa Maria Maior, Santa Luzia, Loreto, São João, São Paulo e Fajã da Ovelha.
Em Julho e Agosto, a sucessão aumenta. Semana Gastronómica de Machico, festas do Santíssimo em várias paróquias, Nossa Senhora da Saúde, Nossa Senhora da Encarnação, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora da Piedade, Festa Gastronómica do Peixe-Espada Preto, Festa Luso-Venezuelana, arraial do Monte, São Roque e festas de São Vicente são apenas alguns exemplos.
A existência de muitas festas fica, assim, demonstrada. Já a frase “já cansa” é uma opinião e não pode ser avaliada como verdadeira ou falsa.
Resta saber se a quantidade e, sobretudo, a adesão permitem concluir que estas festas são “do que os madeirenses gostam”.
Não encontrámos qualquer sondagem representativa que tenha perguntado à população madeirense se gosta ou não de arraiais ou festas populares. Existem, contudo, vários indicadores de adesão significativa. Na Festa do Limão, na Ilha, foram referidos mais de 30 autocarros de visitantes. No arraial do Monte, a edição de 2025 teve um número recorde de 32 barracas. A Festa da Castanha, no Curral das Freiras, registou mais de 500 participantes apenas no cortejo e 19 espaços de comes e bebes.
Na Semana Gastronómica de Machico, que deu origem aos comentários agora analisados, várias noites tiveram grande afluência, com multidões nos concertos de Nininho Vaz Maia e Mariza.
Estes dados mostram que muitas festas populares continuam a ter forte capacidade de mobilização. Não permitem, porém, concluir que os madeirenses, enquanto população, gostam de arraiais. Uma multidão num evento comprova adesão a esse evento, não uma preferência colectiva de cerca de 250 mil habitantes.
Pelo exposto, a afirmação é avaliada como imprecisa. A ideia de que existe “arraial atrás de arraial” encontra sustentação no elevado número de festas e na sua concentração durante o Verão. Também há abundantes exemplos de forte adesão popular. Mas dizer que isso é “do que os madeirenses gostam” transforma esses factos numa generalização que os dados disponíveis não permitem comprovar.