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Madeira

“A Madeira é um diamante e precisa de cuidados todos os dias”

A opinião do biólogo Miguel Sequeira foi corroborada pela constatação dos colegas americanos, Daniel Crawford e Mark Mort, que lideraram o processo de identificação do novo género botânico exclusivo da Madeira, 'Madeirina'

Miguel Sequeira traçou o percurso até à identificação do novo género endémico da Madeira. 
Miguel Sequeira traçou o percurso até à identificação do novo género endémico da Madeira. , Foto ML

O novo género botânico endémico da Madeira, ‘Madeirina’, foi apresentado esta segunda-feira na Universidade da Madeira como o culminar de vários anos de investigação internacional, mas também como um alerta para a importância da conservação da flora insular.

A apresentação decorreu durante o simpósio 'Laboratórios naturais para a evolução: a importância da investigação colaborativa na identificação da diversidade em ilhas oceânicas', onde foi oficialmente dada a conhecer a ‘Madeirina macrorhiza’, a única espécie actualmente integrada neste novo género.

Miguel Sequeira, professor da Universidade da Madeira e um dos investigadores envolvidos no trabalho, explicou que a criação do novo género resulta de uma longa colaboração científica com investigadores da Universidade do Kansas, liderados por Daniel Crawford, que combinou estudos morfológicos, biologia floral e análises genéticas.

Até agora, tal como o DIÁRIO noticiou na semana passada em primeira mão, esta planta integrava o género ‘Tolpis’, que reúne espécies endémicas distribuídas pelos arquipélagos da Macaronésia. Contudo, os estudos demonstraram que uma das espécies madeirenses apresentava diferenças morfológicas e genéticas suficientemente marcadas para justificar a criação de um género autónomo.

“Era tão diferente do ponto de vista morfológico e genético que foi promovida a género”, explicou Miguel Sequeira, sublinhando que o nome ‘Madeirina’ foi escolhido precisamente para homenagear a ilha. “É um endemismo exclusivo da Madeira e o nome foi escolhido para celebrar a ilha”, referiu aos jornalistas.

O investigador destacou ainda o papel decisivo da genética na botânica moderna. Segundo explicou, os marcadores moleculares permitem não só identificar níveis de diversidade invisíveis à observação tradicional, como também estimar quando ocorreram os processos evolutivos que deram origem às diferentes espécies, informação que depois pode ser calibrada com o registo fóssil.

Apesar da importância crescente das técnicas genéticas, Miguel Sequeira salientou que nenhuma disciplina substitui as restantes. “A ciência complementa-se toda”, afirmou, defendendo a conjugação entre genética, morfologia, paleontologia e outras áreas para compreender a evolução das plantas.

Planta abundante, mas vulnerável pela sua distribuição

A ‘Madeirina macrorhiza’ é uma planta rupícola, adaptada às fissuras das rochas em zonas de altitude. Pode ser observada em grande abundância por quem percorre trilhos de montanha, como o percurso entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo, onde cresce “aos milhares”.

Caracteriza-se por desenvolver um caule lenhoso, do qual brotam folhas de um verde intenso e flores amarelas, na descrição apontada por Miguel Sequeira. Apesar de ser uma espécie relativamente fácil de encontrar no seu habitat, o investigador lembrou que o seu crescimento é extremamente lento. “Algumas daquelas plantas podem ter 50 anos. São pequenas, mas demoraram muito tempo a crescer”, explicou.

Questionado sobre o impacto do aumento do turismo na conservação da espécie, Miguel Sequeira considerou que o risco directo é reduzido, uma vez que a planta cresce em escarpas e fendas rochosas inacessíveis aos visitantes.

Ainda assim, fez questão de deixar um aviso mais abrangente sobre a conservação da natureza madeirense. “A ilha da Madeira requer cuidados específicos. É um diamante e precisa de cuidados todos os dias. Se a ilha precisa, as plantas também precisam”, afirmou.

O investigador recordou que qualquer espécie exclusiva da Madeira parte logo com uma vulnerabilidade acrescida devido à reduzida dimensão do território onde existe. “Só por estar apenas na Madeira aproxima-se de uma categoria de ameaça. Se, além disso, ocupa apenas uma parte da ilha, essa vulnerabilidade aumenta.”, sustenrou.

Descobertas semelhantes são raras

Miguel Sequeira admitiu que a identificação de um novo género botânico constitui um acontecimento pouco comum. “Nos últimos dois séculos terão sido reconhecidos apenas meia dúzia de novos géneros. É uma improbabilidade”, referiu, considerando, no entanto, mais provável que no futuro venham ainda a ser descritas novas espécies para a flora madeirense.

Para explicar a importância taxonómica da descoberta, recorreu a uma comparação simples. “Nós somos ‘Homo sapiens’. A espécie é ‘sapiens’, mas o género é ‘Homo’. Descobrir um novo género é um nível muito superior. É um general em vez de ser um sargento”, exemplificou.

Trabalho de vários anos 

A identificação do novo género botânico Madeirina, exclusivo da ilha da Madeira, é o resultado de cerca de 15 anos de investigação conduzida por uma equipa internacional liderada pelo professor Daniel J. Crawford, da Universidade do Kansas, em colaboração com investigadores da Universidade da Madeira.

Na Região para participar no simpósio que decorre na UMa, o investigador salientou que os trabalhos desenvolvidos revelaram que a planta é suficientemente distinta das restantes espécies do género 'Tolpis' para justificar a criação de um novo género. Entre as suas características mais invulgares destacam-se os rizomas, que crescem lentamente nas fendas das escarpas rochosas e podem atingir grande longevidade.

O investigador visitou a Madeira pela primeira vez para participar no simpósio e confessou que observar a planta no seu habitat natural foi um dos momentos mais marcantes da investigação. "Ver uma planta na natureza é completamente diferente de a observar numa estufa ou num jardim", concluiu.

Também Mark Mort, outro botânico e professor de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade do Kansas envolvido na identificação do novo género, acredita que a Madeira ainda poderá revelar novas descobertas científicas ao nível da botânica.

Conforme deu conta, os dados moleculares obtidos pela equipa indicam que este grupo de plantas chegou primeiro à Madeira, contrariando o padrão habitual de colonização observado noutros grupos, em que as espécies se dispersaram entre arquipélagos.

Mort mostrou-se igualmente convicto de que a ilha ainda esconde muita biodiversidade por descobrir. "Passei apenas um dia e meio na Madeira, mas posso dizer, sem dúvida, que há muito mais para descobrir aqui", afirmou, destacando a diversidade de habitats existente numa área relativamente pequena, desde zonas costeiras até às montanhas.