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Fact Check Madeira

Será que a História da Madeira é marcada pela influência da Igreja Católica?

Foto Rui Silva/Aspress
Foto Rui Silva/Aspress

Ontem, Dia da Região Autónoma da Madeira, duas figuras públicas associaram a identidade madeirense à fé católica. O bispo do Funchal, D. Nuno Brás, numa homilia na Sé, afirmou que "se algo marca a história madeirense é o facto de ela se ter construído com Deus presente na vontade e liberdade humana". No parlamento, a deputada do CDS-PP Sara Madalena descreveu os madeirenses como um povo "temente a Deus e a uma religião que o caracteriza, religiosa, mas sobretudo culturalmente".

Será que a Igreja Católica teve tanta influência no destino do nosso arquipélago e na formação das mentalidades da população?

Antes de mais, há que reconhecer que D. Nuno Brás e Sara Madalena não são as primeiras entidades políticas e religiosas a proferir declarações com este teor. Podemos dar dois outros exemplos, já com alguns anos. Há precisamente 21 anos, noutro 1 de Julho, o então bispo do Funchal, D. Teodoro Faria, afirmou que “a Igreja (…) esteve sempre presente na história da Madeira e acompanhou o crescimento espiritual e humano”. Recuando a Outubro de 1995, o então presidente do Governo, Alberto João Jardim, explicava que toda a história da Madeira estava ligada à vida da Igreja Católica: "Foi a Igreja que fez as primeiras escolas. Foi a Igreja que durante séculos assegurou a Educação. Foi a Igreja que assegurou a maior parte das acções de solidariedade social e das infraestruturas de saúde. A cultura da nossa terra está profundamente ligada à presença da Igreja Católica".

Com este artigo pretende-se verificar, com base em trabalhos de investigação académica na área da historiografia, até que ponto se confirma que a Igreja Católica influenciou de forma relevante o percurso histórico da Madeira.

A investigadora Ana Cristina Trindade, do Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA), nota que não é possível conceber a génese de Portugal sem referência à autoridade de Roma, nem entender a expansão portuguesa sem a função evangelizadora que sempre lhe esteve associada. Segundo a autora, essa presença da Igreja surge já nas primeiras obras sobre o povoamento da Madeira: no século XVI, tanto Jerónimo Dias Leite como Gaspar Frutuoso registaram a chegada de clérigos, a construção dos primeiros templos e as biografias dos sucessivos titulares da mitra do Funchal.

O facto historicamente mais citado como prova da centralidade da Igreja na história madeirense é a criação da Diocese do Funchal, a 12 de Junho de 1514, pela bula "Pro excellenti praeeminentia" do papa Leão X. Foi a primeira diocese católica instituída fora da Europa continental, com jurisdição sobre todos os territórios então descobertos ou por descobrir pelos portugueses no Atlântico, em África, no Brasil e no Oriente. O seu primeiro bispo, D. Diogo Pinheiro, usou por isso o título de Primaz. Em 1533, o Funchal foi elevado a arquidiocese, tornando-se durante cerca de duas décadas a maior arquidiocese metropolitana do mundo, até nova reorganização eclesiástica, em 1551, a reduzir novamente ao estatuto de diocese subordinada de Lisboa.

O historiador Rui Carita, autor da obra de referência ‘História da Madeira’, documentou a ligação da Igreja à economia insular desde os primeiros séculos, nomeadamente através do Padroado da Ordem de Cristo, entidade que geriu, em simultâneo, o poder civil e eclesiástico entre 1433 e 1514, e da instalação de instituições como o Colégio dos Jesuítas no Funchal, tema a que dedicou uma monografia específica. Ao longo dos séculos seguintes, conventos como o das Clarissas ou o da Encarnação, tiveram funções de ensino, caridade e enquadramento social das populações. Já no final do século XIX, perante aquilo que a historiografia descreve como indiferença do Estado liberal face à assistência social, multiplicaram-se no Funchal associações católicas de beneficência, como as Damas da Caridade (1876) ou a Associação Protectora dos Pobres (1889).

A influência da Igreja não se limitou à esfera espiritual ou assistencial. A historiadora Fernanda Olival estudou as visitas da Inquisição ao arquipélago, em 1591-92 e em 1618, enquanto Ana Cristina Trindade e Dulce Manuela Teixeira analisaram o funcionamento do tribunal eclesiástico do Funchal e o seu papel na regulação da moral pública. Estes trabalhos mostram uma capacidade de vigilância e disciplina social que se prolongou, sob formas diferentes, até ao século XX.

O período liberal, a partir de 1834, trouxe a supressão das ordens religiosas e a confiscação de bens eclesiásticos. O historiador Gabriel de Jesus Pita, num estudo sobre a Igreja madeirense entre o Liberalismo e o Estado Novo, descreve esse período como um "abraço com correntes de ferro" entre Estado e Igreja: o clero secular manteve lugar no orçamento público e os bispos assento vitalício na Câmara dos Pares, mas perdeu autonomia e recursos. Paradoxalmente, segundo o mesmo autor, foi a instauração da República, em 1910, com o seu anticlericalismo inicial e a separação entre Igrejas e Estado, que acabou por revitalizar o movimento católico madeirense. Surgiram, então, associações como a Liga de Acção Social Cristã (1922), regressaram congregações religiosas anteriormente suprimidas e formou-se uma elite católica militante, com o médico Juvenal Henriques de Araújo a ser eleito deputado pelo Centro Católico em 1922, no círculo do Funchal.

Sob o Estado Novo, Gabriel Pita descreve uma nova aliança entre poder civil e poder religioso, visível na construção de cruzeiros em várias localidades da ilha em 1940 e na recepção solene ao cardeal Cerejeira, futuro Patriarca de Lisboa, em Julho de 1947. Entre finais da década de 1950 e a década de 1960, o padre Agostinho Gonçalves Gomes ocupou o lugar de deputado à Assembleia Nacional pelo círculo do Funchal.

A presença católica acompanhou os madeirenses na emigração. Um estudo de Susana Caldeira, do Centro Cultural John Dos Passos, sobre a emigração madeirense para o Hawai (a partir de 1878) mostra que as comunidades insulares aí estabelecidas fundaram igrejas predominantemente católicas e mantiveram festas religiosas, gastronomia e folclore de origem madeirense, funcionando a religião como factor de coesão e de preservação identitária no estrangeiro.

Vários dos autores citados assinalam que a história religiosa da Madeira está ainda incompleta. Ana Cristina Trindade nota que continuam pouco exploradas áreas como as confrarias, a vida conventual, as visitações pastorais ou a religiosidade popular. Esta ressalva é relevante para o contexto das declarações analisadas. A investigação disponível sustenta uma presença estrutural e prolongada da Igreja na história madeirense, mas não permite tratá-la como um dado uniforme, linear ou isento de tensões. Houve períodos de recuo (o Liberalismo), de contestação popular pontual (como a interdição e expulsão, em 1936, do pároco do Faial, César Teixeira da Fonte, por se opor a medidas governamentais) e de reinvenção institucional (a República).

As declarações do bispo do Funchal e da deputada Sara Madalena, ao associarem a história da Madeira a uma presença religiosa persistente, correspondem a um traço documentado pela investigação histórica sobre o arquipélago. A afirmação de uma marca religiosa na história madeirense é, por isso, consistente com as fontes académicas disponíveis, desde que não seja lida como uma influência estática, mas como um processo com avanços, recuos e reconfigurações ao longo de 600 anos.

“Se algo marca a história madeirense é o facto de ela se ter construído com Deus presente na vontade e liberdade humana” – Bispo do Funchal, D. Nuno Brás “O dia 1 de Julho é, pois, a data de todos os madeirenses. Os de cá e os de além-mar. Do povo resiliente, forte, mas também caloroso, temente a Deus e a uma religião que o caracteriza, religiosa, mas sobretudo culturalmente” – Sara Madalena, deputada do CDS/PP