Uma Sala de Concertos, sim. Mas no lugar certo

Nas últimas semanas muito se tem falado da futura Sala de Concertos a construir no Porto do Funchal. A discussão é importante e merece ser feita com serenidade, olhando para o futuro da Madeira e não apenas para o impacto imediato de uma obra.

Quero começar por deixar uma ideia muito clara: a Madeira precisa de uma grande Sala de Concertos. Há muitos anos que os músicos, as associações culturais, os agrupamentos, as escolas de música e o público aguardam um espaço moderno, com condições acústicas e técnicas à altura das exigências atuais. Essa infraestrutura faz falta à Região e representa um investimento importante na cultura.

No entanto, uma boa ideia pode transformar-se numa má decisão quando é implantada no local errado.

O espaço previsto para esta construção situa-se numa área estratégica do Porto do Funchal, precisamente onde, num futuro muito próximo, será necessária uma das infraestruturas mais importantes para a modernização do porto: um sistema de Shore Power (Onshore Power Supply).

Os grandes portos europeus caminham rapidamente para a eletrificação das operações portuárias. Os navios de cruzeiro, quando permanecem atracados, deverão cada vez mais desligar os seus motores auxiliares e ligar-se à rede elétrica em terra, reduzindo emissões de dióxido de carbono, óxidos de azoto, partículas poluentes e também o ruído. Para que isso seja possível, são necessárias infraestruturas robustas, incluindo postos de transformação, equipamentos elétricos, bancos de baterias e sistemas de apoio energético, idealmente alimentados por fontes renováveis.

É precisamente esse tipo de equipamento que faz sentido localizar junto ao cais, e não uma sala destinada a espetáculos.

A questão não é escolher entre cultura e desenvolvimento portuário. A questão é planear bem o território e dar a cada infraestrutura o espaço que melhor serve a sua função.

Também a designação de “Sala de Concertos da Madeira”, mas que “alguns” lhe chamam “Casa da Orquestra Clássica” merece alguma reflexão. Tudo indica que o edifício será, na prática, uma Sala de Concertos de utilização partilhada por diversas entidades culturais e artísticas da Região. Assim sendo, o nome poderá induzir a ideia de um espaço exclusivo à Orquestra Clássica da Madeira, quando, na realidade, deverá servir toda a comunidade artística madeirense.

Mais importante do que o nome é a localização. Uma sala desta dimensão deveria nascer num espaço com boas acessibilidades, estacionamento suficiente, facilidade de circulação de pessoas e equipamentos e capacidade de acolher grandes eventos durante todo o ano. Uma infraestrutura cultural deve aproximar-se do público, não dificultar o seu acesso.

O Porto do Funchal é uma infraestrutura económica estratégica, com necessidades muito específicas e cada vez mais exigentes do ponto de vista ambiental. A sua evolução tecnológica não pode ser comprometida por decisões que ignoram as tendências internacionais da atividade portuária.

A Madeira não pode desperdiçar esta oportunidade. Pode, e deve, construir uma Sala de Concertos de excelência. Mas deve fazê-lo no local mais adequado, garantindo simultaneamente que o Porto do Funchal dispõe das infraestruturas necessárias para responder aos desafios ambientais e tecnológicos das próximas décadas.

O desenvolvimento sustentável faz-se precisamente assim: planeando com visão, conciliando cultura, economia, mobilidade e ambiente. Não basta construir. É preciso construir no sítio certo.

Roberto Moniz