A política já não é lugar para gente séria?
Há uma ideia que me ocorre cada vez que observo o estado da política em Portugal e, de forma muito particular, na R. A. da Madeira: a política parece estar cada vez menos preparada para acolher gente séria. Não porque não existam homens e mulheres honestos, competentes e disponíveis para servir a causa pública. Existem. O problema é que o ambiente político se tornou tão degradado que muitos recusam sequer entrar nele. Quem construiu uma vida profissional sólida, quem tem um nome a preservar e quem valoriza a sua família pensa duas vezes antes de aceitar sujeitar-se ao escrutínio permanente, à difamação nas redes sociais, às insinuações, aos processos mediáticos e às lutas partidárias onde, demasiadas vezes, vale mais destruir o adversário do que apresentar soluções. A política deixou de premiar o mérito para premiar a capacidade de sobreviver dentro das máquinas partidárias. O debate de ideias foi substituído pela propaganda. A competência cedeu lugar à fidelidade. A independência tornou-se incómoda. Na Madeira este fenómeno é particularmente visível. Durante décadas criou-se uma cultura política onde o partido se confundiu demasiadas vezes com o próprio poder. Em vez de se promover uma saudável alternância democrática e uma competição de ideias, alimentou-se um ambiente onde as lealdades pessoais passaram, muitas vezes, à frente da competência técnica. Quem ousa discordar é rapidamente rotulado. Quem denuncia é acusado de ter segundas intenções. Quem entra para servir acaba frequentemente por ser pressionado a servir interesses partidários antes do interesse público. Não admira, por isso, que muitos dos melhores profissionais da nossa sociedade prefiram continuar nas suas profissões. Um médico, um engenheiro, um empresário ou um professor competente têm hoje muito mais a perder do que a ganhar ao entrarem na política. Arriscam a reputação construída ao longo de décadas para entrarem num sistema onde a suspeita é permanente e onde o reconhecimento pelo trabalho realizado é quase inexistente. O resultado está à vista. A política profissionaliza-se, mas nem sempre no melhor sentido da palavra. Em vez de cidadãos que passam pela política para servir a comunidade e regressam depois à sua atividade, multiplicam-se carreiras políticas que vivem exclusivamente da política e para a política. Uma democracia saudável precisa precisamente do contrário. Precisa de atrair pessoas independentes, experientes e livres, que não dependam de um partido para viver nem de um cargo para sobreviver. Precisa de devolver dignidade ao exercício da política. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir ao afastamento dos melhores e à permanência daqueles que aprenderam a navegar dentro do sistema. E quando um país ou uma região deixam de conseguir atrair gente séria para a vida pública, o problema já não é apenas da política. É da própria democracia. Talvez tenha chegado o momento de perguntar não apenas quem governa, mas que tipo de sistema construímos para que os melhores queiram governar, ou permanecer com medo e ficar calado?
A. J. Ferreira