Os David’s e os Golias desta vida

A vida moderna gosta muito de falar em igualdade, mérito e oportunidades. Fala-se de justiça social, de direitos, de inclusão e de progresso. Mas depois chega o dia-a-dia… e percebe-se que o velho combate entre David e Golias continua bem vivo.

Os Golias desta vida raramente aparecem vestidos de gigantes. Hoje usam fatos caros, gabinetes, influência, departamentos jurídicos, poder económico, redes de contactos e uma capacidade infinita de empurrar problemas para a frente até o mais resistente desistir.

Já os David’s são os comuns mortais. O trabalhador que luta sozinho contra uma máquina administrativa. O cidadão que passa anos à espera de uma resposta. O pequeno empresário esmagado por burocracias. O funcionário que vê injustiças no local de trabalho mas percebe rapidamente que reclamar pode sair caro.

A grande diferença é que, na Bíblia, David derrotou Golias numa tarde. Na vida real, a batalha demora anos. E muitas vezes o objetivo do gigante nem é vencer pela razão. É vencer pelo desgaste.

Empurra-se com recursos, adiamentos, formalidades, tecnicalidades e silêncios estratégicos. O tempo transforma-se numa arma. E há instituições que parecem acreditar que, se fizerem uma pessoa esperar o suficiente, ela acabará por desistir sozinha.

O mais curioso é que os David’s raramente querem privilégios. Na maioria das vezes pedem apenas uma coisa simples: que as regras sejam iguais para todos.

Mas o mundo nem sempre funciona assim.

Há Golias que podem falhar sem consequências. Há David’s que são castigados ao primeiro erro. Há quem tenha acesso direto ao poder e há quem passe meses sem conseguir sequer uma resposta.

Mesmo no trabalho isto acontece diariamente. Uns acumulam benefícios informais, pausas, tolerâncias e facilidades. Outros carregam o peso do serviço em silêncio para “não criar problemas”. Quem cumpre muitas vezes é visto como garantido. Quem contorna o sistema aprende rapidamente como sobreviver nele.

E, no entanto, os David’s continuam a existir. Continuam a insistir, a reclamar, a recorrer, a trabalhar, a resistir. Talvez porque haja uma teimosia muito humana em acreditar que a justiça, mesmo lenta, ainda vale a pena.

A verdade é que todas as sociedades precisam de David’s. São eles que fazem perguntas incómodas. São eles que obrigam sistemas acomodados a mexerem-se. São eles que lembram aos gigantes que o poder não devia significar impunidade.

Porque quando os Golias deixam de ser contrariados, acabam quase sempre por confundir força com razão.

E a História mostra uma coisa antiga, mas verdadeira: os gigantes parecem invencíveis… até ao dia em que deixam de perceber o tamanho da própria arrogância.

António Rosa Santos