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Fact Check Madeira

Será que foram os comerciantes quem introduziu o Halloween na Madeira?

FOTO CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH/EPA
FOTO CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH/EPA

É já no próximo sábado que se celebra mais um Halloween, conhecido por dia ou noite das bruxas, em que crianças e adultos usam disfarces assustadores, pregam partidas às outras pessoas. Os mais novos, andam de porta em porta a perguntar aos vizinhos se querem uma doçura ou uma travessura (do inglês ‘trick or treat’). Algumas lojas aproveitam para vender acessórios alusivos à data e ontem a reportagem da RTP-Madeira andou pelas ruas do Funchal e chegou à conclusão que o negócio já teve melhores dias.

Nos comentários a essa reportagem no Facebook, algumas pessoas dizem que “não tem lógica haver um dia das bruxas” na Madeira. “É só mais dinheiro para os comerciantes ganharem”, acrescentou. “Com tudo fazem negócio”, desabafou outra pessoa. “Querem à força implementar essa tradição”, denunciou outra ainda.

Do conjunto de comentários perpassa a ideia de que a data é celebrada na Região sobretudo como iniciativa comercial. Será mesmo assim?

Há várias teorias sobre a origem do Halloween. A tese mais divulgada liga o evento ao Samhain, festival gaélico da Irlanda e da Escócia que marcava o fim da colheita e o início do Inverno, por volta de 31 de Outubro, quando se julgava que os mortos regressavam. A Igreja fixou o Dia de Todos os Santos a 1 de Novembro, e “All Hallows’ Eve” converteu-se em “Halloween”. Os emigrantes irlandeses levaram-no para os EUA no século XIX.

O “trick or treat” vem de duas práticas europeias. Desde pelo menos o século XVI, em Inglaterra e Irlanda, havia o ‘souling’, em que os pobres iam de porta em porta a 1 e 2 de Novembro e ofereciam orações pelos mortos em troca de “bolos de alma”. Na Escócia e na Irlanda havia o ‘guising’, em que as crianças e jovens disfarçavam-se e recitavam versos ou cantavam em troca de comida ou moedas. Os emigrantes levaram ambas para a América do Norte. A expressão “trick or treat” surge impressa no Canadá em 1927 e, nos anos 30, nos EUA, associada a partidas e vandalismo na noite de Halloween. Dar um doce era a forma de evitar a ‘travessura’. A prática só se generalizou depois da Segunda Guerra Mundial, quando acabou o racionamento do açúcar, e nos anos 50 já era uma tradição infantil. Só a partir da década de 1990, estas tradições se espalharam pelo Mundo.

Em Portugal, por altura do Dia de Todos os Santos, era tradicional o Pão por Deus. As crianças, com saquinhos de pano ou de papel, iam de porta em porta pedir pão, bolos, frutas secas, castanhas ou doces, dizendo “Pão por Deus”.

Para apurarmos quando é que a tradição anglo-saxónica do Halloween chegou à Madeira, recorremos aos arquivos de notícias do DIÁRIO e do Jornal da Madeira, com pesquisa por palavras-chave como “Halloween”, “bruxas”, “noite das bruxas”.

A primeira referência à celebração do evento no nosso arquipélago remonta a 1 de Novembro de 1994 e menciona a celebração da data por “professores e alunos de Inglês” em “diversas escolas do Funchal”. Pretendia-se destacar um aspecto da cultura popular em países de língua inglesa e a notícia era acompanhada de uma foto de uma exposição com representações de bruxas e desenhos relacionados com a temática.

Em Novembro de 1995, há duas notícias sobre celebrações mais desenvolvidas. Por exemplo, o “grupo de Inglês da Escola Básica e Secundária do Galeão celebrou entusiasticamente o Dia das Bruxas (31 de Outubro)”. “As professoras do grupo disfarçaram-se de bruxas e visitaram as salas de aula tentando recriar o ‘trick or treat’ característico da época. Realizou-se, igualmente, um concurso de bruxas extensivo a todos os alunos”, adianta o mesmo texto. Já na Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco houve uma exposição com trabalhos dos alunos, incluindo desenhos, pinturas, composições e até lanternas feitas de abóboras e barro. Nos anos seguintes, tornou-se comum encontrar notícias a mencionar celebrações semelhantes.

A primeira notícia de uma iniciativa de cariz comercial relacionada com o Halloween remonta a 29 de Outubro de 1999. Dava conta que a discoteca ‘O Farol’ (no hotel Carlton) ia celebrar a noite das bruxas, com decoração temática e a oferta de uma viagem a Londres para os dois melhores disfarces.

A 26 de Outubro de 2001, o Hotel Calheta Beach anunciava a realização da sua festa de Halloween, sendo que para participar era “obrigatório o traje a condizer com o tema”. Outros espaços de diversão seguiram depois estes exemplos.

Uma das primeiras notícias a abordar o negócio em torno da venda de acessórios para o Halloween foi publicada a 31 de Outubro de 2008. A reportagem do DIÁRIO fez uma ronda pelas lojas e concluiu que o negócio era sobretudo impulsionado pelos eventos promovidos pelas escolas, que já extravasavam as actividades promovidas na disciplina de Inglês. “Agora é como o Carnaval, há uma festa na escola e eles levam um disfarce”, contava uma mulher que procurava um traje para um menor que frequentava o 1.º ano no Colégio do Marítimo.

Os arquivos do DIÁRIO e do Jornal da Madeira apontam, assim, para as escolas, e não para os comerciantes, como o primeiro vector do Halloween na Madeira. A primeira referência, de 1994, diz respeito a actividades de professores e alunos de Inglês em escolas do Funchal, e só em 1999 surge a primeira iniciativa comercial, numa discoteca. O comércio terá entrado depois, primeiro com festas em espaços nocturnos e hotéis e, em 2008, com a venda de acessórios, já impulsionada pelas festas escolares.

As lojas "querem à força implementar essa tradição na Madeira” - Comentário no Facebook