Crónicas

As cicatrizes e como tudo fica à mostra

Todos lutavam por se manter à tona de água, dignos o suficiente para tomar conta de si

Há anos, quando eu tinha pouco mais de 30 e olhava a idade como uma doença que dava às pessoas depois dos 50 anos, alguém me explicou que as pessoas e o vinho sofriam a mesma metamorfose. Os bons apuravam; os maus azedavam, era tudo uma média ponderada de genética e acaso.

E, ninguém do alto de uma pele lisa e da frescura da juventude, conseguia perceber como seria quando o processo se iniciasse. Mais à frente, numa curva da minha existência, a idade iria apanhar-me como o faz a todos os que têm a sorte de continuar vivos.

Eu achei, como sempre consideram os jovens, que seria diferente comigo. As minhas tias ainda me faziam o lanche quando as ia visitar e o meu pai telefonava para avisar que passasse em casa para levar ovos e nêsperas, anonas, para levar o que dava na fazenda. Por fora, viam-se os sinais, estavam mais velhos, mais grisalhos, falavam mais de dores, mas o meu tio Humberto ainda conduzia o Fiat Uno.

E a minha tia Alice ia ao cabeleireiro fazer uma permanente de três em três meses. Nessa altura eu não sabia ainda que a vaidade é o último de uma mulher. A vida no Laranjal parecia-me mais ou menos igual, tão normal que espacei as visitas sem notar que, por detrás daquela aparência, todos lutavam para se encaixar num mundo que não era mais o mesmo.

Havia telefones a tocar no bolso ou dentro da carteira, a existência paralela da Internet e requisitos, obrigações que lhes pareciam absurdas, tão absurdas e capazes de lhes tirar o sono e o sossego. A declaração do IRS, o papel para pagar menos na farmácia, a inscrição no centro de saúde, o vale da reforma que tardava a chegar à caixa do correio.

Todos lutavam por se manter à tona de água, dignos o suficiente para tomar conta de si, das casas onde viviam mesmo que, tal como eles se queixavam de reumatismo, as paredes mostravam as cicatrizes, o vidro colado, o candeeiro sem lâmpada. Por todo o lado, em cada canto, havia como que um grito, um alerta.

Os meus velhos, as pessoas que eu achei possível conservar para sempre como homens e mulheres de meia idade, estavam frágeis, cada vez mais dependentes e olhavam-me como uma luz para tentar orientar-se num mundo confuso, demasiado confuso.

Eu era demasiado jovem para compreender o me pediam, o que tinha pela frente e irritei-me mais vezes do que devia. Não fui sempre doce, delicada ou carinhosa. Não sou assim, tenho demasiados defeitos, mas não consegui virar costas. Afinal eram os meus tios, as minhas tias, o meu pai e tive de fazer um caminho para entender que, no fim, era apenas carinho o que precisavam.