O tempo aqui passa devagar

O Agosto do nosso (des)contentamento, já a entrar na sua segunda quinzena, coloca, habitualmente, o Porto Santo na crista da onda. Nem sempre é referenciado pelas melhores razões, sobejamente conhecidas, mas não foge à regra em matéria de festas e eventos, como acontece por todo este país fora, num Verão profícuo de promessas e felicidade. O Porto Santo não se faz apenas de veraneantes, mas sobretudo de residentes. O Porto Santo é um bem inestimável que é necessário tratar cuidadosa e religiosamente, e não me parece que esteja a ser alvo desse cuidado. Quem ama, cuida. Falta-nos ainda tanto, mas anuncia-se e propagandeia-se como se houvesse outra realidade, como se não continuássemos reféns das mesmas dependências e dependentes crónicos. Nunca houve tantos motivos para pensar e nunca se pensou tão pouco. Porque pensar dá trabalho. Enquanto se confundir entretenimento com felicidade, popularidade com grandeza e ruído com liberdade, os governantes, verdadeiros génios da manipulação terão a sua actividade facilitada. Ironia das ironias, os próprios governados aplaudem e defendem quem os manipula. E é este tipo de comportamento colectivo o soro que alimenta reiteradamente a eleição de alguns políticos da nossa praça, democraticamente “autorizados” a exibir e exercer a sua incompetência. Mais de meio século depois há muito quem acredite na velha e sempre actual narrativa da entrega, por amor, dos homens da política à nobre causa pública. Alguns? Poucos, talvez.

Protesta-se contra a corrupção, contra a mediocridade, contra a incompetência mas elegemos repetidamente os mesmos protagonistas. Testemunha-se a contínua degradação do estado da Saúde, da Educação, da Justiça, etc., porque a mediocridade ocupa o lugar que pertence ao mérito. Esperamos uma mudança para a qual não damos o mínimo contributo. E a vida segue.

Por outro lado, quem manifesta o seu descontentamento publicamente ou tece qualquer tipo de crítica é ostracizado, enxovalhado, desvalorizado e, eventualmente, penalizado. É inglório argumentar com alguém que acredita nas próprias mentiras. Criticar, responsavelmente, é sinal de dignidade, pois só quem não tem dignidade nenhuma se cala e aceita tudo. É preciso exigir sempre melhor, não se deixar vencer pelo cansaço, mesmo que alguns perante o óbvio insistam em venerar a mentira e o ilusionismo de massas. Ninguém se deve calar perante o sarcasmo e desprezo daqueles a que os cargos e responsabilidades só aproveitam aos próprios interesses. A dignidade de cada um exige respeito, decência e justiça. Há quem passe a vida inteira a seguir o que todos fazem. Eu prefiro continuar a fazer o que poucos fazem. Pensar antes de olhar para onde toda a gente está a olhar. Sem pressa. O tempo aqui passa devagar...

Madalena Castro