DNOTICIAS.PT
Crónicas

“What’s going on”

Sair de casa para ir estudar fez-me dona da minha vida. Não levei mais do que uma mala de roupa e um edredão num saco e, apesar de tudo, aquela não era bem a minha ideia de viajar

Viajar foi talvez o meu maior desejo enquanto crescia e formava uma ideia do mundo pelas histórias que as primas e a tia Conceição traziam de fora, das excursões da paróquia à Terra Santa e a Fátima. A adolescente confusa e tímida que eu era acreditava que encher uma mala com roupa e entrar num avião para aterrar num lugar diferente significava ter o destino nas mãos. O que acabou por ser verdade, mas não como imaginei durante as tardes sem fim das férias grandes da escola.

Sair de casa para ir estudar fez-me dona da minha vida. Não levei mais do que uma mala de roupa e um edredão num saco e, apesar de tudo, aquela não era bem a minha ideia de viajar. O que eu tinha fantasiado em cima do terraço misturava praias de areia quase branca, piscinas e hotéis bonitos com passeios para ver museus, visitar todas cidades da Europa e trazer de lá miniaturas dos monumentos mais importantes como uma Torre Eiffel pequenina para ficar no móvel da televisão.

As circunstâncias em que cruzei pela primeira vez a fronteira e entrei em Badajoz também foram diferentes: dois autocarros cheios com destino a Estrasburgo e o objectivo de mostrar as instituições europeias ao povo em geral e aos jornalistas em particular. E foi nessa condição que segui viagem e almocei em estações de serviço de Espanha e França e dormi em hotéis baratos. Pelo caminho atravessei Madrid, passei os Pirineus e parei em Genebra, onde comprei um chapéu de veludo ao estilo das 4 Nom Blondes para me proteger da chuva miúda do Norte da Europa.

Apesar dos propósitos diferentes, a experiência devia ser mais ou menos como a que a minha tia Conceição e as minhas primas tinham tido anos antes nas excursões do padre Rebola. Elas foram a Fátima, eu seguia para o Parlamento Europeu com jornalistas das rádios locais que, nesse tempo, eram a alma da comunicação social. A maioria de nós tinha menos de 30 anos e acreditava que o sítio onde trabalhava naquele momento era apenas o início de uma carreira. E, à noite, depois do jantar, havia sempre discussões acaloradas sobre os caminhos que a profissão estava a seguir com a chegada das televisões privadas.

Embora não fosse uma viagem de férias, eu estava mais ou menos deslumbrada com o que vendiam as estações de serviço e o facto de ter, dentro da carteira, escudos, pesetas, francos suíços e francos franceses. Não havia nada mais cosmopolita do que isso, pensava eu, enquanto via ao longe os picos gelados dos Alpes e me espantava com a polícia e os cães a revistar os carros na fronteira entre a Suíça e a França. Ou como me esmagou o tamanho da catedral de Estrasburgo que, vista à noite, me pareceu ainda maior. Também me surpreenderam os vinhos ao almoço e o mercado de enchidos e queijos.

As poucas fotografias que tenho não mostram a felicidade daquela semana com paragem em Paris, onde comprei livros de banda desenhada, uma caixinha de música para oferecer e a tal torre Eiffel para o móvel da televisão. E também não ficou gravado o coro dos rapazes das rádios locais a cantar, sem falhar uma nota, “what’s going on” por causa do meu chapéu quase igual ao da Linda Perry. Sim, aquela mesma senhora ainda de chapéu, que foi ao Rock in Rio e voltou cantar a mesma canção que é mais do que isso, é memória e nostalgia, é a adolescência e os primeiros passos na vida adulta de uma geração. E que a mim traz sempre essa viagem até Estrasburgo de autocarro, tinha eu 23 anos acabados de fazer.