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Análise

A bomba demográfica

Atrair e fixar população qualificada torna-se uma tarefa cada vez mais complexa

Nas últimas semanas, a actualidade regional manteve o foco em temas de grande pertinência. O Governo Regional autorizou a contratação de médicos aposentados para reforçar o SESARAM, prolongou incentivos para aumentar a produção cirúrgica e de consultas (mais de um milhão e meio de euros para este ano), e reduzir listas de espera, e voltou a reconhecer dificuldades no recrutamento de especialistas. Surgiram, ainda, novos dados que confirmam a quebra da natalidade. Discutiram-se altas problemáticas e a necessidade de reforçar os cuidados continuados.

Estes assuntos interligam-se. Na realidade, todos apontam para a mesma fatalidade: a Região está a envelhecer a passos largos.

Durante anos, esse envelhecimento populacional foi encarado e publicitado como uma questão para o futuro. Os estudos demográficos alertavam para a redução da população activa, o aumento da esperança média de vida e a diminuição do número de nascimentos. Parecia uma realidade distante, cuja dimensão só seria plenamente sentida pelas gerações seguintes. Eis que o futuro chegou condicionando decisões que, muitas vezes, analisamos de forma isolada.

A saúde é talvez o exemplo mais evidente. Uma população mais envelhecida necessita de mais consultas, mais exames, mais cirurgias e mais internamentos. Cresce igualmente a necessidade de cuidados continuados e de respostas para as pessoas dependentes. Ao mesmo tempo, muitos profissionais aproximam-se da idade da reforma, enquanto o recrutamento de novos médicos, reitera-se, continua a revelar-se difícil em diversas especialidades.

Neste contexto, tememos que a contratação de médicos aposentados deixe de ser uma medida excepcional para ser, sim a resposta a uma carência permanente. O mesmo sucede no que concerne aos incentivos destinados à produção clínica adicional. São instrumentos importantes para reduzir listas de espera, mas não alteram a tendência de fundo: haverá cada vez mais procura de cuidados de saúde.

Seria, contudo, um erro pensar que este desafio se limita apenas a este sector.

O mercado de trabalho também sente os efeitos desta transformação. Empresas, administração pública e instituições sociais enfrentam dificuldades em atrair profissionais. Em muitos casos nem sequer justificados nos salários e condições, há, simplesmente, menos pessoas disponíveis para ocupar determinados postos de trabalho, enquanto, também aqui, aumenta o número de trabalhadores que atingem a idade da reforma.

Concomitantemente, a quebra da natalidade dificulta a renovação geracional. Cada criança que fica por nascer representa, no futuro, menos um trabalhador, menos um contribuinte, menos um agente de sustentação de um sistema social que dependerá de uma população activa cada vez mais reduzida. É um problema silencioso, porque os seus efeitos demoram anos a tornar-se visíveis, mas quando chegam são difíceis de inverter.

A Madeira enfrenta ainda um desafio acrescido: é um território insular, onde o custo da habitação e de vida é elevadíssimo. Atrair e fixar população qualificada torna-se uma tarefa cada vez mais complexa. Muitos jovens partem para estudar e já não regressam, optando por desenvolver a sua carreira noutros mercados, com melhores perspectivas profissionais e salariais.

Perante este cenário, as respostas públicas têm incidido sobretudo sobre as consequências. Criam-se incentivos, aprovam-se regimes extraordinários e reforçam-se respostas sectoriais. Tudo necessário e até urgente, mas permanece a dúvida sobre se existe uma estratégia integrada para enfrentar o problema na sua origem.

A demografia não muda ao ritmo de uma legislatura. Exige políticas consistentes de apoio à natalidade, habitação acessível a todos, retenção de talento, imigração qualificada, envelhecimento activo e reorganização dos serviços públicos. São decisões cujos resultados só serão visíveis daqui a muitos anos, precisamente quando já ninguém se recordar das manchetes de hoje.

Talvez, seja essa a principal reflexão. A contratação de médicos aposentados, a pressão sobre os hospitais, a falta de profissionais e profissionais especializados, a redução dos nascimentos ou a necessidade de procura por respostas sociais não são questões independentes. São diferentes faces da mesma realidade.