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Fact Check Madeira

Será que Cristiano Ronaldo enviou dois aviões com ajuda humanitária para a Venezuela?

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Depois do duplo sismo que atingiu a Venezuela a 24 de Junho, começou a circular nas redes sociais Facebook e X/Twitter, a partir de 29 de Junho, diversas publicações que dizem que o futebolista madeirense Cristiano Ronaldo enviou dois aviões carregados de medicamentos, alimentos e roupa para apoiar as vítimas. Uma das versões da história atribui à "presidente da Venezuela" um agradecimento ao jogador: "Recebemos dois aviões enviados por Cristiano Ronaldo, de Portugal. Medicamentos, alimentos e roupas. Dois aviões lotados. Não tenho palavras para descrever a gratidão que nós, como país, temos por Ronaldo".

Será que o capitão da selecção portuguesa enviou, de facto, ajuda humanitária à Venezuela na sequência dos sismos?

Para verificar a alegação, foram consultadas as contas oficiais de Cristiano Ronaldo e de Georgina Rodríguez nas redes sociais, notícias de órgãos de comunicação social portugueses e internacionais, e os trabalhos de verificação sobre o mesmo tema já publicados por El Diario e Cotejo.info, ambos parceiros do programa de verificação de factos de terceiros da Meta (Facebook) na Venezuela.

Os dois sismos de 24 de Junho atingiram sobretudo o estado de La Guaira e a cidade de Caracas, provocando o colapso de edifícios e um elevado número de vítimas mortais e feridos, incluindo várias dezenas de portugueses e lusodescendentes, a maioria destes de origem madeirense. A catástrofe gerou várias campanhas solidárias a nível internacional, com contribuições de organizações como a Fundação Real Madrid, o FC Barcelona, a Cruz Vermelha e o Vaticano.

Até ao momento, não existe qualquer comunicado de jogador Cristiano Ronaldo, da sua agência de representação, da Federação Portuguesa de Futebol ou da FIFA que confirme o envio de aviões com ajuda humanitária para a Venezuela. A pesquisa realizada pela plataforma venezuelana Cotejo.info, publicada a 2 de Julho, não encontrou provas da suposta doação até àquela data. O jornal El Diario chegou à mesma conclusão, notando que o suposto donativo, avaliado por algumas publicações em 50 toneladas de ajuda, também não foi noticiado pelos meios de comunicação oficiais, o que seria expectável acontecer, tratando-se de uma acção de grande dimensão de uma figura pública à escala mundial.

Isto não significa, de forma alguma, que a estrela do Al-Nassr tenha ficado indiferente à tragédia na Venezuela. Bem pelo contrário. A 27 de Junho, antes de um treino em Palm Beach, todos os jogadores da selecção portuguesa cumpriram um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos sismos. Mais recentemente, Cristiano Ronaldo enviou um vídeo de incentivo a Andrés Miéles, uma criança venezuelana que perdeu as duas pernas na sequência dos sismos.

Uma das justificações que têm sido avançadas para duvidar da veracidade da publicação sobre o envio de dois aviões pelo craque português é a de que a Venezuela "não tem uma presidente". Essa afirmação não corresponde, contudo, à situação actual do país. Na sequência da operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro, a 3 de Janeiro de 2026, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina da Venezuela, sendo desde então tratada por "presidente encarregada" ou "presidente interina" em comunicados oficiais e na cobertura noticiosa internacional. A existência de uma presidente à frente do país não é, por si só, um indício de falsidade da publicação. A alegação falha, no entanto, por não existir qualquer registo de uma declaração de Delcy Rodríguez ou de qualquer outra autoridade venezuelana a agradecer publicamente a Cristiano Ronaldo por uma doação de aviões com ajuda humanitária.

Esta não é a primeira vez que se atribui a Cristiano Ronaldo uma doação humanitária que não é confirmada. Em 2022, circulou a alegação de que o jogador tinha doado 1,5 milhões de dólares à Palestina. Nessa altura, o site português de fact-checking Polígrafo confirmou junto da Gestifute, agência que representa o futebolista, que a informação era falsa. O mesmo padrão de atribuição de gestos solidários não confirmados a Cristiano Ronaldo repete-se agora a propósito da Venezuela.

Há que assinalar que Cristiano Ronaldo já protagonizou, no passado, acções de solidariedade após catástrofes naturais. Em Março de 2023, após os sismos que atingiram a Turquia e a Síria, o jogador financiou o envio de um avião carregado de tendas, roupa de cama, cobertores, alimentos, leite para bebés e material médico para as zonas afectadas, segundo avançou na altura o ‘Daily Mail’ e confirmaram vários órgãos de comunicação social. É precisamente este precedente, real e verificado, que parece ter sido adaptado para a criação do enredo sobre a Venezuela, substituindo a Turquia e a Síria pelo país sul-americano, e um avião por dois.

Não existem provas de que Cristiano Ronaldo tenha enviado dois aviões carregados de ajuda humanitária para a Venezuela, nem de que qualquer dirigente venezuelano tenha feito uma declaração pública de agradecimento nesse sentido. A alegação parece resultar da adaptação de um episódio anterior, verdadeiro, relativo à doação de um avião com ajuda para as vítimas dos sismos na Turquia e na Síria, em 2023. A única ajuda relacionada com o casal confirmada até ao momento foi prestada por Georgina Rodríguez, companheira do futebolista, e não por Cristiano Ronaldo.

"Recebemos dois aviões enviados por Cristiano Ronaldo, de Portugal. Medicamentos, alimentos e roupas. Dois aviões lotados. Não tenho palavras para descrever a gratidão que nós, como país, temos por Ronaldo." — Publicação nas redes sociais atribuída à presidente da Venezuela