Saudade

Voltei à aldeia um dia
No meu fértil imaginar
A pensar que me iludia
Nesta ânsia de pensar
Parti de alma vazia
Vazia teve de voltar

Sumiu-se o tal carreiro
Que descalço, eu pisava
Já não vi o sapateiro
Que ali sapateava
E a filha do padeiro
Que a todos encantava

Tem a agora um sucateiro
Naquele velho lagar
Já não se sente o cheiro
Das uvas a amadurar
Já não há um castanheiro
Que se pudesse varejar

Morreu o galo da vizinha,
Que à meia-noite cantava
Secou-se aquela fontinha
Que da nascente brotava
Para consolação minha
Só a lua, ‘inda lá estava

José Miguel Alves