DNOTICIAS.PT
Comunidades Madeira

“Tenho família morta, desaparecida e casas rachadas em La Guaira”

None

Jorge fala com a voz de quem ainda tenta perceber a dimensão da tragédia. Está na Madeira há nove anos, mas uma parte importante da sua vida continua em La Guaira, na Venezuela, zona mais atingida pelos dois sismos. Foi ali que viveu, trabalhou, criou relações, construiu património e deixou família e amigos. Agora, depois da destruição provocada pelos terremotos recebe notícias fragmentadas, vídeos, telefonemas, relatos contraditórios e nomes que vão surgindo entre mortos, feridos, soterrados e desaparecidos.

“Não é fácil. Uma pessoa pensa uma coisa, mas depois vem outra”, desabafa.

Jorge viveu durante muitos anos em La Guaira, na zona de Caribe, perto do McDonald’s, e conhece bem a área mais atingida. Diz que tem duas propriedades na Venezuela e que ambas ficaram afectadas. “Estão rachadas”, conta, referindo que o edifício onde vivia também apresenta danos.

A preocupação, porém, vai muito além das casas.

O emigrante madeirense fala de familiares e conhecidos atingidos pela tragédia. Conta que uma irmã morreu na Venezuela, que um neto faleceu em La Guaira, na zona do Porto, e que tem ainda um afilhado desaparecido. “Está perdido, ainda não apareceu à família”, afirma, sem esconder a angústia de quem recebe informações a conta-gotas.

Há também um primo, antigo proprietário de um restaurante no Lido, na Madeira, que não terá ainda sido localizado. “Também não apareceu”, refere Jorge Sousa.

As informações chegam-lhe de familiares, amigos e vídeos partilhados a partir da Venezuela. Algumas ainda sem confirmação definitiva, como faz questão de sublinhar. Sobre uma família que estava soterrada, admite que não dispõe de todos os dados. “Já não estou bem a par disso. Vi agora num vídeo que já tinham tirado o filho. Ontem à noite estavam a dizer que o povo pedia auxílio, mas depois parece que já não falavam”, relata.

Segundo o que lhe foi transmitido, estariam envolvidos vários elementos da mesma família, incluindo filhos, noras e crianças. Mas Jorge prefere não avançar com certezas que não tem. “Não posso explicar bem. Não sei informar”, diz.

A prudência não diminui a dureza do relato. Pelo contrário. Mostra a confusão própria das primeiras horas e dias depois de uma catástrofe, quando as famílias tentam perceber quem está vivo, quem foi resgatado, quem morreu e quem continua por encontrar.

Conhece também pessoas ligadas ao Hotel Edwards, uma das referências mais citadas nos relatos vindos de La Guaira. Diz que o genro do proprietário do hotel casou com uma filha sua e que se encontra actualmente em Miami. Sobre a unidade hoteleira, fala de muita gente soterrada e de informações que circulam sobre desportistas que estariam no local, nomeadamente pessoas ligadas ao basebol e ao futebol. Ainda assim, volta a separar o que sabe do que apenas ouviu.

“Dizem uma coisa e outra”, reconhece.

O madeirense foi vendedor na Venezuela. “Vendia tabaco”, recorda. Percorria caminhos, conhecia muita gente e chegou a ter mais de 200 clientes Essa vida ficou para trás, mas não desapareceu. Continuam lá propriedades, afectos, amigos, recordações e uma comunidade inteira que agora sofre com a destruição.

Quando fala da zona atingida, a descrição é pesada. “Na zona caíram mais de 30 edifícios, tudo para baixo”, afirma. Segundo o seu relato, há prédios completamente destruídos e outros gravemente afectados. Um edifício situado na parte de trás de um hotel, que diz estar ligado a militares, terá ficado completamente destruído.

Jorge refere ainda dois hotéis associados à sua família ou ao seu círculo próximo, o Hotel da Seibo e o Marazul, que, segundo diz, estão “normais”. A ressalva é importante, porque a tragédia não atingiu todos os edifícios da mesma forma, mas deixou marcas profundas em toda a zona.

“Graças a Deus, o hotel da gente não passou nada”, diz. Logo depois, porém, volta à realidade mais dura: à volta, há prédios destruídos, amigos desaparecidos e familiares atingidos.

O drama de Jorge é o drama de muitos emigrantes madeirenses que estão na Região, mas continuam presos emocionalmente à Venezuela. A distância aumenta a ansiedade. Quem está cá depende de chamadas, mensagens, vídeos e relatos de terceiros. Cada informação nova pode trazer alívio ou mais dor.

Jorge não sabe quando voltará à Venezuela. “Não sei ainda”, admite. A vontade existe, mas a incerteza também. “A Venezuela, sabes como é”, diz, numa frase curta que carrega anos de instabilidade, dificuldades e, agora, uma tragédia que veio agravar tudo.

Apesar de estar há quase uma década na Madeira, nunca cortou os laços. “Tenho saudades dos rapazes de lá”, confessa. La Guaira não é apenas um lugar onde viveu. É parte da sua história. E agora essa história aparece-lhe em imagens de prédios rachados, familiares mortos, desaparecidos por localizar e amigos que não sabe se voltará a ver.

Entre o que está confirmado, o que ainda falta confirmar e o que chega em forma de rumor, Jorge tenta manter alguma lucidez. Não dramatiza além do que sabe. Não inventa certezas. Mas também não esconde o medo.

A tragédia de La Guaira está a ser vivida no terreno por quem escava, procura e espera. Mas também está a ser vivida a milhares de quilómetros, na Madeira, por famílias que olham para o telemóvel à espera de uma chamada, de uma fotografia, de uma mensagem ou de uma notícia que lhes diga se os seus ainda estão vivos.

Jorge é uma dessas pessoas. Tem casas danificadas, familiares mortos, gente desaparecida e uma vida inteira abalada do outro lado do Atlântico. “Há muitos amigos que não aparecem”, resume num comentário cortante.