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Crónicas

Primeiro ano

A noite do jantar de turma foi divertida, até usei batom vermelho e um casaco azul, a minha roupa de cerimónia

Os sinais luminosos nas farmácias registavam 40 graus quando sai do metro para o primeiro exame da faculdade. O calor mal me tinha deixado dormir no sótão onde vivia na Amadora, mas lá ia eu, de passo firme, a meio da multidão, sem saber bem como ia ser. A maioria dos meus colegas tinha apanhado o autocarro ou comboio para casa depois do jantar de turma na casa do Alentejo. Antes, no anfiteatro, na despedida das aulas, trocámos moradas e prometemos mandar postais e cartas durante as férias.

A noite do jantar de turma foi divertida, até usei batom vermelho e um casaco azul, a minha roupa de cerimónia. No fim, acabamos todos a dançar numa discoteca. Depois disso, os outros foram para casa, mas eu continuei para os exames, não dispensei a nenhum naquele primeiro ano. Nas costas daquela miúda de 19 anos, de cabelo comprido e óculos, pesavam muitas coisas que ainda não tinham nome naquele Julho de 1990. A começar no tempo, que estava só muito quente e a ninguém ocorria que se tratava de uma onda de calor.

Lá, na ilha que tinha deixado uns meses antes, não havia aquele calor, havia o Leste, que obrigava a procurar refúgio debaixo da pimpineleira e a aproveitar a aragem fresca do ribeiro. Era diferente como tudo naquela Lisboa onde as tascas anunciavam caracóis e as bananas e os abacates eram fruta tropical. As pessoas falavam depressa e tinham sempre pressa, fosse a entrar ou sair do metro e abriam os olhos quando dizia que era da Madeira, como se fosse, também eu exótica.

Por baixo daquele ar firme de quem vai à confiança estava tudo o que tinha mudado desde que aterrara na cidade grande. A saudade de casa que nunca confessei. Ou a falta que me fazia a minha mãe, o meu pai, o meu irmão e até o meu quarto com aquela colcha azul de folhos e padrão dos anos 70. Nem eu sabia bem como estava ali, com aqueles exames todos para fazer, sem admitir nunca que estudar em Lisboa era mais difícil do que tinha imaginado. Não se fazia como no liceu e a prova foram aquelas duas semanas, que duraram mais do que a onda de calor.

Uma vez por outra cruzava-me com um colega, de ar enfiado e muito aflito por ter um ou dois exames para fazer. Ao fim de uma semana, sentia-me veterana e tentava animar quem chegava, diminuído por já não ser como no secundário, quando éramos todos os melhores alunos. De todas as lições daquele primeiro ano na universidade e em Lisboa, trouxe também essa: a capacidade de aceitar as limitações e redefinir objectivos. Não ia ter as melhores notas, mas ia passar de ano. E, no fim, respirei de alívio com os meus 12 e 13.

A minha mãe ficou contente e eu tive dois meses de férias descansados, com praia e livros e todas as atenções das minhas tias. Foi o Verão em que o Iraque invadiu o Kuwait, mas isso estava demasiado longe para me tirar o sono e a alegria de estar em casa. Foi também o Verão em que comecei a ter o coração na Madeira e parte em Lisboa, onde estavam os amigos e amigas com quem troquei cartas nessas férias.