A história às vezes, parece que se repete
1989 ficou na história do Mundo como o ano em que o Muro de Berlim caiu e, para Portugal, foi o primeiro em que se ganhou uma taça de juniores em futebol lá longe, em Riade, ainda a Arábia Saudita era um lugar exótico e sem qualquer relevância nas questões da bola. E, pelo que se via pela televisão, a vontade de mudar chegava de todos os cantos do planeta e até da China, onde os estudantes enfrentavam os tanques na Praça de Tiananmen.
Cá por cima, no Laranjal, também houve mudanças. O meu irmão chegou de Mafra para completar o serviço militar como segundo furriel no RIF e, por isso, trocámos as cartas pelas conversas depois do almoço. E, pela primeira vez, como dois adultos. Foi o ano em que fiz 18 anos e em que votei pela primeira vez, mas também o da candidatura à universidade e de uma trapalhada semelhante à que se assiste nas notícias por estes dias.
Já o ano lectivo tinha começado quando o Ministério da Educação decidiu mudar as regras de acesso. E, preocupado com o nível de cultura geral dos candidatos, estabeleceu que seríamos todos submetidos a uma prova geral de acesso, a célebre PGA. A entrada dependia das notas do secundário, dessa prova e ainda das provas específicas exigidas por cada universidade. E que seriam - e foram - elaboradas e corrigidas por professores universitários.
O assunto deu que falar, foi até notícia, mas o país era outro e ninguém nos olhava como o futuro ou uma geração promissora. Os protestos não tiveram fôlego e lá fomos fazer a primeira PGA, sem saber bem o que era aquilo. E fizemos, pois podíamos não ser tão cultos como as universidades pretendiam, mas ninguém nos tirava o talento para superar situações novas. Qualquer um de nós andava de transportes públicos desde os 10 anos, era responsável pela matrícula na escola desde os 15 e ia à venda desde os 7, o que era uma vantagem.
Testado o nosso nível cultural - com um texto e perguntas de interpretação - seguimos para as provas específicas. Eu fiz a de Filosofia e a de História e acreditei que teria as notas a tempo da candidatura. Os senhores professores decidiram que não e partiram para uma greve de seis meses. Enquanto decorria o braço de ferro com o governo, nós, os reféns desta história, entregámos a candidatura sem saber a média, sem saber se as escolhas combinavam com as notas. Foi um acto de fé, de esperança, talvez os dados jogassem a nosso favor.
Não soubemos as notas em Agosto, passou Setembro e Outubro e, na televisão, já se dizia que as universidades não iam abrir o primeiro ano dos cursos. Em Novembro, enquanto enchia cadernos com contas de notas hipotéticas, a preocupação rendeu-me uma gastrite. Os meus sonhos e planos estavam ali, num limbo, sem saber se entrava ou esperava mais um ano, profundamente triste e sem perceber a razão da greve, nem por que motivo tinham feito de nós, miúdos de 18 anos, reféns e cobaias das experiências de modernização da Educação.
Três anos depois, outros miúdos do secundário saíram à rua e acabaram com a Prova Geral de Acesso. E eu pensei que não voltaria a assistir a uma trapalhada como aquela de 1989, quando o primeiro ano nas universidades portuguesas começou só em Janeiro de 1990, mas as história, às vezes, parece que se repete.